O peso do trabalho do cuidado em All Her Fault (Tudo Culpa Dela)
Por Daniela Valenga
Na série All Her Fault (Tudo Culpa Dela, em português), Milo (Duke McCloud) desaparece após a mãe receber uma mensagem convidando o menino para brincar com um colega da escola.
Ao chegar para buscar o filho no endereço que acreditava ser de Jenny (Dakota Fanning), Marissa (Sarah Snook) descobre que ela não mora ali e ninguém sabe onde Milo está.
Atenção: este conteúdo contém spoilers da série.
As investigações revelam que o sequestro foi cometido por Carrie (Sophia Lillis), babá do filho de Jenny. A trama acompanha a busca por Milo.
O título “Tudo Culpa Dela” evidencia um ponto central da série: como mulheres são exclusivamente responsabilizadas pelo trabalho do cuidado e culpabilizadas quando algo dá errado.
Marissa e Jenny se aproximam por uma vivência comum: a exaustão de equilibrar carreira, maternidade e a responsabilidade pelo cuidado da família.
Após o desaparecimento de Milo, Peter (Jake Lacy), marido de Marissa, questiona por que ela não checou o número ou salvou o contato dos pais da escola, culpando-a pelo ocorrido.
Já o marido de Jenny, Richie (Thomas Cocquerel), questiona como ela não percebeu sinais de alerta em Carrie, embora ele não tenha participado da contratação da babá.
Enquanto Jenny tenta conciliar o crescimento profissional e o cuidado com o filho, Peter reivindica tempo para seus hobbies — incluindo ficar no carro assistindo vídeos no celular.
Mesmo não sendo o foco principal, a série mostra como o cuidado recai de forma desproporcional sobre as mulheres. A filósofa Silvia Federici é referência no tema.
“O que chamam de amor, chamamos de trabalho não remunerado.”- Silvia Federici.
Socialmente, espera-se que as mulheres cumpram o trabalho do cuidado, como acompanhar um parente ao médico, limpar a casa, organizar a rotina dos familiares, cuidar dos filhos etc.
No Brasil, segundo o IBGE, mulheres dedicam cerca de 10 horas a mais por semana aos afazeres domésticos do que os homens.
A série também provoca debates sobre classe social. As protagonistas, pertencentes a famílias abastadas, podem contratar babás, o que permite observar as relações que se estabelecem no trabalho de cuidado.
O contraste também é observado a partir da família do Detective McConville (Michael Peña), que possui outro contexto socioeconômico. Ele e a esposa precisam se desdobrar para cuidar do filho de 13 anos, adolescente com deficiência de desenvolvimento e não verbal.
Reconhecer, valorizar e redistribuir o trabalho do cuidado, incluindo os recortes de classe, gênero e raça, é urgente.