Cinco entrevistadas falam sobre a visibilidade lésbica como estratégia de existência/Arte: Luiza Lobo

Visibilidade lésbica: temos um projeto político de sociedade

Postado em 23/08/2019, 12:00

“Casamento não é a principal pauta, a principal pauta é estar viva”, afirma Fernanda Nascimento, professora e pesquisadora em gênero e sexualidade. Segundo ela, enquanto as mulheres de classe média, que assumem essa orientação sexual, levantam a bandeira política do casamento lésbico, as mulheres de classes pobres reivindicam o direito de viver livre de violências, e mais precisamente o direito à vida. “Temos cada vez mais a visibilidade daquelas que se enquadram na norma […] Temos um recorte de classe que é significativo para pensar as outras formas de representação, pensar como a classe média sempre vai representar essas demandas, mesmo que sejam grupos minoritários. É um desafio constante pensar sobre quem estamos falando e sobre quem não está falando”, analisa.

“Uma mulher branca lésbica tem privilégios. A mulher negra, a sapatão, é marginalizada. Sofremos violências diariamente e as desculpas são as mais esfarrapadas. É importante eu me colocar enquanto mulher lésbica”, aponta Elisangela Palhano, que atua em iniciativas de apoio à população LGBTI+, trazendo o debate da discriminação racial.

Palhano se descobriu lésbica há três anos, como revelou ao Catarinas. “Foi libertador, eu queria gritar para o mundo que eu sou lésbica, feliz, que eu conheço o meu corpo e, hoje, não tenho limites”. Para além da sua vivência, em conversa com mulheres lésbicas ela compreende a dimensão do isolamento social ao qual estão expostas. “Vejo o quanto é violento não ter o acolhimento da família, o apoio das pessoas que deveriam ser a maior segurança. É muito importante estar próxima, dar esse apoio, porque o afeto é o que cura, liberta”.

Mariana Queiroz, poeta e psicanalista, destaca que a busca por visibilidade é uma das estratégias políticas, outras vezes é uma questão de sobrevivência recorrer ao silenciamento da identidade lésbica diante do preconceito e da cultura de ódio voltada a quem não se enquadra no padrão hegemônico. “Quantas mulheres se amaram com outros nomes numa época em que isso não era nomeado […] Dependendo do território, do lugar que você está na cidade, se colocar como sapatão, andar na rua com alguém não é uma coisa segura”, assegura.

A psicanalista pondera sobre o debate colocado em datas específicas, como o último 19 de agosto que marcou o Dia Nacional do Orgulho Lésbico.

“Eu tenho um pouco de incômodo com isso, no mês de agosto a gente fala da sapatão, em novembro do povo preto, como se fossemos identidades, como se as nossas questões fossem somente identitárias. Temos projetos políticos para além das mulheres lésbicas, temos um projeto de sociedade”.

Em 19 de agosto de 1983, há 36 anos, ocorreu a primeira manifestação lésbica no Brasil, quando um grupo de mulheres lésbicas se reuniu em frente a um bar na cidade de São Paulo para protestar contra a discriminação no local. “Elas tinham o primeiro jornal lésbico, o Xana com xana, e os caras as proibiram de falar do periódico dentro do bar. Um mês depois, as minas voltaram e não só ocuparam como fizeram questão de subir nas mesas e ler o Xana com xana. Isso ficou conhecido como o levante do Ferro’s Bar e o que deu origem ao dia”, explica a bibliotecária Guilhermina Cunha.

Cunha é uma das organizadoras da Mostra Uma câmera na mão, sapatão! que acontece até 29 de agosto, na capital catarinense. É a primeira mostra itinerante em Florianópolis sobre obras cinematográficas que abordam temas de representatividade lésbica.

Todas essas entrevistas estão no vídeo especial produzido pelo Catarinas:


As violências contra lésbicas

Entender a especificidade do assassinato de mulheres lésbicas por motivo de preconceito e ódio motivou o levantamento inédito das pesquisadoras Milena Cristina Carneiro Peres, Suane Felippe Soares e Maria Clara Dias que resultou no Dossiê sobre o Lesbocídio no Brasil, lançado no ano passado.

O termo lesbocídio utilizado no estudo é definido como a morte de lésbicas por motivo de lesbofobia ou ódio, repulsa e discriminação contra a existência lésbica. Todo o lesbocídio é um feminicídio, mas nem todo o feminicídio é um lesbocídio, como esclarecem as autoras do Dossiê, destacando a importância desta característica ser tratada com atenção.

Segundo dados do relatório, entre 2014 e 2017, 126 mulheres lésbicas foram assassinadas e 33 suicidadas no país. A pesquisa, que segue em andamento, já contabilizou até julho de 2018, 91 mortes no ano, demonstrando que o contexto de violência não apenas continua, mas tem aumentado.

“Os espaços públicos são perigosos e frequentados principalmente por homens. As cidades interioranas são locais em que todas as pessoas se conhecem e a lésbica fica visada. Os homens são os principais agressores devido às características próprias da sociedade em que vivemos na qual a existência de lésbicas é sempre vista pela ordem heteropatriarcal como uma afronta”, responderam as pesquisadora do dossiê em entrevista ao Catarinas.

Em reportagem publicada nesta semana, a Gênero e Número traz um dado revelador das violências às quais as mulheres lésbicas estão expostas. O mais assustador é que essas mulheres são vitimadas dentro de suas próprias casas. O levantamento feito a partir de dados obtidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan, parte do Ministério da Saúde) via Lei de Acesso à Informação, identificou que em média, seis lésbicas foram estupradas por dia em 2017, em um total de 2.379 casos registrados. Em 61% dos casos notificados, a vítima foi estuprada mais de uma vez.

Em 61% dos casos, a agressão ocorreu na residência, enquanto 20% aconteceram em vias pública e 13% em outros locais. Os homens são os algozes mais frequentes, aparecem como autores em 96% das agressões sexuais, enquanto as mulheres são apenas 1% das agressoras. Em 2% das agressões há registros de ambos os gêneros como agressores. Em 1% dos casos notificados o gênero do autor não é identificado.

Assim como nos outros tipos de violência, as mulheres negras são a maioria das vítimas de estupro contra lésbicas. Em 2017, elas representavam 58% das vítimas, seguida de brancas (35%), indígenas e amarelas (1%).