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Compilação das autoras de 12 edições da Revista ChanacomChana, do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF).

Lésbicas na ditadura: vida e militância sob estado de exceção

Postado em 19/06/2020, 15:59

Por Binah Ire, Camila Diane Silva e Maria Helena Lenzi*.

Em tempos de pandemia, a produção intelectual está atrelada à situação excepcional que os efeitos desse evento causam. Assim como tantas outras facetas da história humana sobre a Terra, as epidemias, pandemias e relações humanas nestes contextos constituem histórias com as quais podemos identificar semelhanças e distinções passadas e presentes. Em tempos de pandemia sob um governo autoritário, talvez no preâmbulo de um novo golpe dentro do golpe de 2016 ou de um levante radicalmente antirracista, sendo otimista, ou mesmo com essas e outras tantas coisas acontecendo juntas, seguimos reiterando a necessidade de refletirmos sobre as pautas feministas – das quais vemos um pouco em cada tópico deste Projeto que encampamos – e lesbofeministas, considerando que essas pautas são atravessadas pelos efeitos coloniais da história nacional que constitui o Brasil enquanto tal.

A ditadura militar (1964-1985) foi um período marcado por supressões de direitos, de manifestações culturais, de reivindicações históricas também atreladas, sempre, aos elementos que fazem do Brasil, o Brasil. Não à toa sob a sua marca estão genocídios e massacres contra povos indígenas e quilombolas, contra as comunidades negras nas favelas, que seguem persistindo e se agudizam num cenário de pandemia e autoritarismo como o que temos testemunhado. Dentre essas manifestações suprimidas, está a existência lésbica, perseguida nos textos, nos guetos e nos corpos lésbicos das sapatonas, como Luana Barbosa. Naquela ditadura, conforme nos contaram nossas entrevistadas, a negação dessa existência por parte do Estado combinava ignorância, censura e perseguição, e se enraizava no corpo social com um grande veto às palavras e pessoas referidas por elas.

No Brasil democrático, temos enfrentado reacionarismos diversos, como os projetos que atacam as discussões de gênero e sexualidade nas escolas e os avanços conservadores sobre direitos conquistados, como a união civil de lésbicas e gays. Somos lembradas o tempo todo que nada nos foi dado de bom grado e que embora as lésbicas estejam presentes na militância e nas teorizações feministas há muito tempo, nem sempre são reconhecidas na sua dedicação aos ativismos, que permanecem bastante heterocentrados. Através da pesquisa e da construção dos capítulos para o livro e webdoc do Projeto Mulheres de Luta: feminismo e esquerdas no Brasil (1964-1985), foi-nos possível celebrar a existência lésbica e o lesbofeminismo que, de certa forma, constituiu-se no país no final da década de 1970. Ouvindo e pesquisando, conseguimos revelar um panorama que nos faz valorizar o que conquistamos no período democrático e ter noção de que ainda há quase tudo pela frente, mas que estamos fortalecidas pelas lésbicas/sapatonas que nos antecederam e semearam resistência.

Assista ao episódio:

Quer saber mais?
Acesse o artigo “Ser lésbica na ditadura: vida e militância sob estado de exceção” para leitura mais aprofundada sobre este tema. Disponível no livro resultante do Projeto Mulheres de Luta.

Clique aqui para acessar o webdocumentário Mulheres de Luta completo.

Ficha técnica:
Entrevistas: Camila Diane Silva, Binah Ire, Maria Helena Lenzi e Jair Zandoná
Roteiro: Camila Diane Silva, Binah Ire, Maria Helena Lenzi
Filmagem: Elaine Schmitt, Camila Diane Silva e Binah Ire
Edição:  Marina Moros

*Binah Ire é arquivista e mestra em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalha e pesquisa acervos de pesquisa, acervos de ativismos e acervos culturais de forma geral.

*Camila Diane Silva é doutoranda em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.

*Maria Helena Lenzi é doutora em Geografia Humana pela USP. Professora do Departamento de Geociências da UFSC. Membro do conselho editorial da Revista Latino-americana de Geografia e Gênero.

Edição de Morgani Guzzo.