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Encontros feministas. Fonte: Acervo pessoal de Hildete Pereira de Melo.

Criando laços, fazendo redes: os encontros a partir das narrativas de feministas brasileiras

Postado em 30/07/2020, 12:24

Por Claudia Regina Nichnig*.

Apresentar o tema do web-documentário e o capítulo, escrito por mim, que compõe o livro Mulheres de Luta: feminismo e esquerdas no Brasil (1964-1985), organizado pelas professoras Cristina Scheibe Wolf, Soraia Carolina de Melo e Jair Zandoná, é falar de uma trajetória de afetos, auto-reconhecimento e luta feminista. A oportunidade de pesquisar e escrever sobre os encontros feministas foi um desafio, pois são múltiplos encontros que se traduzem em espaços políticos de trocas e formação de redes.

Por esse motivo selecionei, a partir das entrevistas que realizamos para a pesquisa, falas que enfatizassem a participação em encontros feministas como marcos para o seu próprio reconhecimento como feminista e, ainda, como essa participação tanto no Brasil como em outros países, em destaque os encontros realizados na América Latina e organizados pela ONU, são recheados de afetos, aprendizagens e fortalecimentos mútuos.

Naquele momento, em que não havia conexões através da internet e das redes sociais e a militância estava permeada por reivindicações e pelo enfrentamento à ditadura militar e suas medidas de endurecimentos dos direitos, bem como de práticas como as prisões e torturas de militantes, os encontros  eram primordiais. Assim, mulheres organizadas ou não em coletivos, buscavam os espaços dos encontros para o fortalecimento de seus desejos por uma sociedade mais justa e solidária mas, sobretudo, lutavam por igualdade entre homens e mulheres e uma vida sem violência.

Como a luta feminista é que moveu (e ainda move) mulheres que tiveram uma participação ativa nos feminismos brasileiros durante a ditadura militar, suas narrativas demonstram as dores e os amores de participar dos movimentos feministas no período pesquisado, sendo os encontros os ápices dos fortalecimentos, trocas e compartilhamentos de estratégias de luta.

Realizar a escrita do capítulo do livro e a condução do episódio do web-documentário junto ao  Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH) da UFSC demonstra que, além de ser um local de aprendizado da História a partir das teorias feministas e de gênero, também é um espaço de encontro acadêmicos, em que estudantes de diferentes gerações foram formadas e forjadas nas teorias e, também, na prática feminista.

Durante a produção coletiva desse trabalho, realizado pela equipe da pesquisa  Mulheres de Luta, aprendemos e ensinamos que o ensino, a pesquisa e a extensão se faz com luta e afeto. Como nos ensina bell hooks inspirada em Paulo Freire, a produção do conhecimento deve ser dar de forma engajada e comprometida, e a educação como prática de liberdade somente se dá no encontro afetivo e respeitoso, entre alunes e professoras. Entendo que a luta feminista, seja na academia ou fora dela, deve ser marcada por essas qualidades.

Assim como o LEGH produz encontros feministas para acadêmicas e acadêmicos de diferentes gerações de estudantes, as falas das entrevistadas demonstram como diferentes espaços dos encontros de militância foram importantes em seus forjar-se, em seu devir feminista. As narrativas sobre os encontros dão conta de mostrar como esses, assim como os feminismos brasileiros, são plurais, demonstrando como bandeiras, falas e corpos estavam em ação naquele momento. “Organizados por mulheres marcadas por sua raça, etnia, classe social, orientação sexual, nacionalidade, religião e deficiências os encontros são plurais e trazem as marcas identitárias de mulheres múltiplas, com suas questões específicas” (p. 379). Destaco a fala de Analba Brazão sobre o encontro de mulheres no Rio Grande do Norte com mais de 700 mulheres.

A experiência fantástica de escutar essas mulheres e narrar algo que é impossível de se traduzir em palavras e em apenas um texto foi um desafio, pois são muitas memórias sobre esses encontros, que marcaram a vida das entrevistadas. Muitas destacam a experiência agradável dos encontros mas, como nos conta Eva Blay, também houve momentos não tão agradáveis e bastante tensos, já que não podemos esquecer que viviam uma nada branda ditadura civil-militar. Porém, fico com a leveza e alegria de Clair Castilhos, que me contou, ao me receber de forma acolhedora em sua casa, “em uma tarde de outono em Florianópolis, sobre suas participações nos encontros feministas dos anos 1980: ‘era bárbaro, super divertido, entusiasmadíssimos os encontros’” (2017, p. 17).

Assim, convido a assistirem o episódio e lerem o capítulo do livro, com desejo que fomente novas ideias e fervilhe a memória das feministas brasileiras sobre a sua própria participação. É claro que essa é uma história em construção: cada nova narrativa de uma participante desses divertidos e saudosos encontros, em que diferentes narrativas vão trazer os aspectos bem humorados e os diferentes modos de fazer política que marcam esses  encontros, compõe essa colcha de retalhos que constituem as subjetividades.

Os encontros sempre estarão em um lugar especial de nossa memória. Essa é uma história que não terminou e que ainda deve ser contada e transmitida. Convido a todas as mulheres a contarem e falarem sobre suas experiências de encontros feministas, com certeza nesse tempo de isolamento social, lembrar dos abraços compartilhados nos fará mais forte na caminhada que ainda está por vir e que precisa demais da força e da coragem das feministas.

Assista ao episódio:

https://www.youtube.com/watch?v=n2zbxhexunY

Quer saber mais?
Acesse o artigo “Criando laços, fazendo redes: os encontros e articulações a partir das narrativas de feministas brasileiras” para leitura mais aprofundada sobre este tema, disponível no livro resultante do Projeto Mulheres de Luta.

Clique aqui para acessar o webdocumentário Mulheres de Luta completo.

Ficha técnica:
Roteiro e entrevistas: Claudia Regina Nichnig
Edição: Marina Moros

*Claudia Regina Nichnig é historiadora, advogada e doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina na área de Estudos de Gênero, e pós-doutora em História e Antropologia Social.

Edição de Morgani Guzzo.