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Imagem: Mãe Gilda | Crédito: Marina Silva Correio.

“Não é intolerância religiosa. É racismo!”, afirmam representantes de terreiros

Postado em 10/05/2022, 16:35

Em debate realizado por Criola, Catarinas e Conectas, convidados falaram sobre o papel da religião no debate de direitos humanos e no enfrentamento à violência contra religiões de matriz africana

“É racismo sim, não existe outra expressão que possa nominar o que o povo de terreiro sofre e sofreu por séculos no Brasil”. A declaração é de Bàbá Diba de Yemonjá, Coordenador da RENAFRO Saúde, durante o primeiro encontro online do Diálogos Sobre Racismo Religioso, realizado em 5 de maio, no Canal do Youtube do Portal Catarinas. 

Promovido por Criola, Conectas e Portal Catarinas, com apoio de Synergia, o ciclo de debates recebeu também Rafael Soares, secretário de Planejamento e Cooperação de KOINONIA, Felipe Brito, idealizador e diretor geral da Ocupação Cultural Jeholu e Lúcia Xavier, coordenadora da Criola. Eles foram convidados a refletir sobre qual o papel da religião no debate de direitos humanos e no enfrentamento à violência contra religiões de matriz africana. 

Durante o encontro, foi unânime o entendimento de que é preciso nomear como racismo religioso esse tipo de violência e a partir dessa concepção pensar políticas e estratégias de enfrentamento.

“Eu acho o termo do racismo religioso muito pedagógico porque ele traz essa fatia do racismo. Ele apresenta a sofisticação da perversidade do racismo como ele se apresenta. Mas é tudo racismo e a gente não pode perder isso de vista”, afirma Felipe Brito. 

Segundo Lúcia Xavier, a ideia da intolerância religiosa não oferece às religiões de matriz africana um conjunto de instrumentos que as defendam. Para a coordenadora, a perspectiva da intolerância é muito parecida com a ideia anterior do crime atual de racismo. Uma espécie de contravenção ou caso isolado. Mas não é disso que se trata. 

“Trata-se de uma prática persistente, consistente, do estado brasileiro e de setores da sociedade.  E essa prática, o tipo de legislação e o tipo de ação política  que cabe ao estado, mesmo ele sendo também um violador, não são suficientes para abarcar a ideia de intolerância”, classifica Lúcia. 

A coordenadora da Criola completa que o contexto das violências sofridas por essas religiões está endereçado à população negra, o que reforça a importância de categorizar. “Ela não ocorre de maneira igualitária em todos os setores, pois, há muitos babalorixás brancos e outras lideranças e elas não sofrem da mesma forma. Isso não quer dizer que elas não devam estar protegidas. Mas o avanço contra essas religiões ocorre justamente nos espaços de favela, periféricos, ocupados por pessoas negras, sobretudo mulheres negras, e homossexuais, inclusive trans e travestis. O que temos em termos de legislação e políticas públicas não dá conta disso”.

Já Rafael Soares lembrou que desde 2007 celebra-se em 21 de janeiro o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Foi esta a data de morte da Iyalorixá baiana Gildásia dos Santos e Santos, conhecida como Mãe Gilda, em 2000. Ela e a família foram alvo de diversos ataques verbais e agressões físicas, além de depredações do espaço religioso. Com problemas de saúde agravados por conta dos ataques de ódio, Mãe Gilda teve um infarto.

O Ogan trouxe para a conversa as estratégias de comunicação e de ocupação de espaço de poder adotadas por lideranças neopentecostais para a prática de violação de direitos desses praticantes. Mãe Gilda, por exemplo, foi alvo de difamação em um jornal da Igreja Universal do Reino de Deus. 

Além disso, ele pontua que o fundamentalismo vai muito além das religiões, fazendo parte de diferentes estruturas da sociedade brasileira e se manifestando em conceitos como o da meritocracia.

“Esse debate precisa crescer para dialogar com a questão democrática e a ameaça a direitos”, aponta Rafael. 

A omissão do Estado diante dessas violações e até mesmo a promulgação de leis que reprimem a liberdade religiosa também foram destaque, como traz Bàbá Diba de Yemonjá em sua fala sobre o Rio Grande do Sul. “Fomos obrigados a pensar política pública para poder enfrentar esse racismo religioso porque aqui as perseguições foram a partir de leis para tentar nos pegar, cercear os espaços. Quanto mais eles tentam cercear, mais qualificado a gente fica!”. 

Os convidados também ressaltaram ainda como os terreiros são espaços de afeto, acolhimento e entendimento político a partir da comunidade. Espaços verdadeiramente políticos, de luta e de enfrentamento das desigualdades raciais e sociais do país. 

“Na tradição de matriz africana que a existência do mais velho não só é preservada, ela é sagrada, em contraponto a uma sociedade ocidental que descarta o corpo e a existência do mais velho. É também na matriz africana que o conceito de família tradicional se dilui, que a nossa família é expandida. Uma criança no terreiro é responsabilidade de todos”, afirma Felipe Brito. 

O ciclo de debates “Diálogos sobre racismo religioso” é um evento público, gratuito e de amplitude nacional que prevê ainda outros três encontros ao longo de 2022. 

O objetivo é entender as lacunas que existem no debate político e de direitos humanos sobre liberdade religiosa e racismo religioso, levando em consideração a intersecção de gênero, identidade de gênero, territorialidade e outras dimensões de opressão. 

Vamos dialogar sobre os impactos do racismo religioso junto à população negra, os povos de religiões de matriz africana, aos povos indígenas e outros grupos sociais afetados por esse tipo de violência e violação dos direitos humanos. 

O primeiro encontro foi transmitido pelo canal do Portal Catarinas no Youtube e você pode conferir aqui.

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Jornalista, produtora e pesquisadora em projetos especiais.
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