“Quando se prioriza a composição feita por uma mulher, se prioriza o olhar dela para o mundo”/Foto: Luiza Filippo

Sonora Ciclo Internacional de Compositoras e o olhar da mulher para o mundo

Postado em 17/10/2016, 9:49

Nesta terça-feira (18), começa o Sonora Ciclo Internacional de Compositoras, em Florianópolis. Serão cinco dias de atividades que envolvem mostra de palco, debates e exibição de videoclipes para dar visibilidade às mulheres compositoras. A ideia, que surgiu a partir de uma mobilização nas redes sociais, engajou mulheres em 26 cidades, no Brasil, Argentina, Portugal, Irlanda, Espanha, e Uruguai. Reunindo compositoras de todo o estado, a mostra na capital catarinense levará ao palco o maior número de artistas, serão 33, com um repertório diversificado que vai do pop ao erudito. Isso porque aqui a mostra é ainda mais inclusiva, integra também intérpretes: desde que cantem compositoras que morem no estado. É o caso de Jana Gularte que vai interpretar Iara Germer – cuja música foi criada especialmente para ela – e Tatiana Cobbett. “Nós, mulheres catarinenses, temos muito a dizer. Acho que ouvir e trocar músicas e experiências umas com as outras é o caminho certo para crescer e alcançar o grande público”, afirma Jana. Vencedora do troféu de Melhor Intérprete no concurso de Marchinhas de Florianópolis (2015), ela recebeu seu primeiro prêmio aos 12 anos quando defendeu a composição de uma tia. Desde então, foi premiada em pelo menos três festivais. Em entrevista, a intérprete e feminista fala sobre os desafios de manter-se na profissão e o que espera do Sonora.

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Catarinas: Qual a sua expectativa em relação ao Sonora Ciclo Internacional de Compositoras?
Jana:
Acredito que esta mostra de compositoras seja parte de uma onda crescente de empoderamento feminino que estamos vivendo nos últimos anos. Minha expectativa é que este primeiro festival suscite nas pessoas a vontade de conhecer tantos trabalhos maravilhosos de mulheres incríveis que carregam e defendem a bandeira do som autoral quase de forma quixotesca, já que as emissoras de rádio e TV não cumprem nem a cota mínima obrigatória de veiculação de trabalhos autorais locais. Chamar a atenção do grande público para a música autoral feita no estado, tendo mulheres como protagonistas, tanto no palco quanto na organização e produção do evento, é sem dúvida algo importante tanto para a música quanto para a luta por igualdade de gênero, e certamente fomentará muitas discussões pertinentes e urgentes, tanto no campo artístico quanto na comunidade civil em geral. Os fóruns que sucederão a mostra trazem alguns destes temas, como representatividade feminina no mercado musical catarinense, por exemplo. Espero que esta seja a primeira de muitas mostras.

Catarinas: Como você vê a realização de uma mostra dedicada a visibilizar o trabalho de compositoras brasileiras e mais especialmente, de catarinenses?
Jana
: Quando se prioriza a composição feita por uma mulher, se prioriza o olhar desta mulher para o mundo. Temos muitas músicas de homens falando a partir do lugar da mulher, o que é interessante, já que a liberdade artística permite este jogo nos papeis de gênero. Mas é importante lembrar que esta possibilidade do homem falar como mulher jamais substitui o olhar da própria mulher, e na nossa mostra, mesmo que tenhamos homens tocando, todas as composições são femininas.

Vejo este festival como fundamental no momento histórico que vivemos, principalmente para questionar papéis socialmente impostos às mulheres, que parecem estar voltando à tona com o renascimento de um conservadorismo retrógrado que, infelizmente, estamos vivendo na atualidade.

Catarinas: O festival surgiu de uma mobilização de artistas diante da não indicação de compositoras mulheres em uma mostra. Em sua opinião, há diferença na valorização de músicas criadas por homens e por mulheres? As mulheres têm mais dificuldades em dar visibilidade a seus trabalhos?
Jana:
Creio que a dificuldade da valorização do trabalho feminino seja algo intrínseco a uma sociedade machista como a nossa. O mundo da música é um mundo, em sua grande maioria, masculino, mas acho importante salientar que a diferença que se faz entre compositores e compositoras não é necessariamente dentro do campo do fazer musical, mas no campo de quem vende a música. Mesmo que existam sim, machismos na relação diária com músicos (não posso ser hipócrita), a falta de aposta no trabalho autoral feminino geralmente vem de um esquema exterior, da “mão do mercado”, que prefere a mulher enquanto porta voz do que os homens compositores têm a dizer do que a mulher falando a partir de sua própria visão. Acho que isto está aos poucos mudando, principalmente porque a internet possibilita um mercado alternativo e capta um público que não se identifica mais com uma arte anacrônica e não representativa.

Catarinas: Você escolheu a música como profissão? É possível viver de música em Santa Catarina? Nesse cenário, há peculiaridades em ser mulher?
Jana:
Sou cantora desde os treze anos, mas demorei a aceitar a música como profissão. Não me envergonho em dizer isto, porque desde muito cedo somos submetidas à ideia de que música – e arte em geral- é entretenimento, diversão, não profissão, e porque também só quem é mulher e musicista sabe que estas duas categorias acabam sendo meio que uma “antítese na corda bamba”.

Equilibrar vida social e trabalho parece quase uma esquizofrenia. Poucas pessoas acham normal ser mãe e cantora, por exemplo, e até se empoderar e entender que não precisamos dar a satisfação social que esperam de nós, demora um bocado.

Mas mesmo que eu tenha me assumido cantora, viver de música em Santa Catarina é ainda inviável. As casas pagam pouco, temos pouquíssimos projetos culturais para fomentar arte – não temos sequer uma secretaria de cultura- e não temos um órgão que regule a profissão. Estamos tentando esta regulamentação com a Associação dos Profissionais da Música (Apromuf)  – que nasceu há poucos meses e é uma esperança para a melhora das condições de trabalho. Quanto a ser mulher, sim, existem inúmeras peculiaridades que não caberiam nesta entrevista, mas no que tange ao mercado, acredito que as compositoras tenham ainda mais dificuldade que as intérpretes, pois além de vencer a barreira de gênero, tem de vencer a barreira da hostilidade à musica autoral local, já que a maioria dos donos de casas de show não se interessam em fomentar arte, mas em ter a música como mero acessório; por isto, o novo é sistematicamente rejeitado e o cover o mais aceito.

Jana Gularte interpreta Adele:

Catarinas: Você tem acompanhado a produção musical em Santa Catarina? Quais compositoras você destacaria e o que elas trazem para a cena?
Jana:
Tenho no repertório músicas de autoria feminina, mas são bem menos do que eu gostaria. Acho que isto faz parte de todo um histórico musical que me formou como cantora e que tem me parecido um pouco ultrapassado nos últimos tempos; mudar bases é algo doloroso e gradual, mas jamais impossível. Além disso, faz muito pouco que temos percebido a falta de representatividade de compositoras e mesmo de escritoras no mercado artístico como um problema a ser resolvido. Quanto às compositoras catarinenses, tenho como referência a maravilhosa Tatiana Cobbett, e a partir dela acabei conhecendo muitas compositoras incríveis como a não menos maravilhosa Iara Germer. Na mostra cantarei composições das duas, inclusive uma que a Iara fez especialmente pra mim inspirada no espetáculo “Fados, cravos e rosas” que fiz neste ano sob a direção da Tatiana Cobbett, onde havia temas da própria Tatá no repertório, além de textos de Elisa Lucinda e meus.

Catarinas: O que vem pela frente? Como você planeja sua carreira para os próximos anos?
Jana: Esta questão de gênero vem me fazendo pensar no meu canto de forma diferente. O próprio espetáculo de fado que citei anteriormente, que teve a Tatiana Cobbett como diretora artística, foi pensado neste viés feminista e empoderador. Tivemos várias conversas e ela entendeu este meu anseio, fazendo um roteiro incrível e representativo. Estou no momento planejando meu primeiro trabalho em CD – que acabou sendo interrompido por meu envolvimento no espaço cultural Biruta no ano passado – e a montagem de um show que trate justamente da relação das mulheres com a música, intitulado provisoriamente de “Boêmia”, onde pretendo cantar apenas autoras femininas e convidar outras cantoras e musicistas para dividir o palco.

Catarinas: Atualmente, que artistas, mulheres ou homens, você ouve?
Jana:
 Tenho ouvido bastante o último CD da Tatiana Cobbett e do Marcoliva, o “Sawabona Shikoba”. Assim como a incrível Fátima Guedes- que é uma autora que surgiu nos anos 80 e que acredito não ter a visibilidade de que é merecedora- , Patrícia Polayne, uma sergipana forte e representativa, além de meu conterrâneo Vitor Ramil no seu último trabalho “Foi no mês que vem”. Françoise Muleka, meu amigo Cássio Moura, meus amigos do Rivo Trio, Brass Groove Brasil e Trama trio também estão na minha discoteca, além de tudo o que amigos me indicam ouvir.

Acho que precisamos ter humildade pra percebermos que uma reeducação musical que privilegie o novo começa por nós músicos, pois mesmo estando imersos neste universo artístico somos muitas vezes tão acostumados a ouvir “as mesmas coisas de sempre” que não conseguimos olhar pro lado e ver as músicas e autoras (es) incríveis que estamos perdendo de conhecer.

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