Resistência da população em situação de rua garante diálogo sobre Centro Pop

Postado em 24/08/2017, 11:44

Nesta semana, a prefeitura de Florianópolis anunciou mudanças nos serviços oferecidos pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) e o repasse do atendimento para voluntários. Sem aviso prévio ou oficialização, a informação repassada aos funcionários do centro e às pessoas que dele dependem era que a unidade, localizada na Passarela do Samba Nego Quirido, encerraria seu atendimento na quarta-feira. Para evitar o fechamento representantes de movimentos e pessoas em situação de rua ocuparam a sede da prefeitura em Florianópolis e conseguiram uma reunião com o prefeito em exercício, João batista, que garantiu que o Centro funcionaria nessa quinta-feira e que nova reunião será feita na sexta (dia 25 de agosto) para pensar soluções de forma conjunta.

Uma funcionária, que preferiu não se identificar, disse que o aviso da Secretária de Assistência Social foi verbal, sem apresentação de documento oficial. De acordo com a servidora pública, tem sido prática da atual gestão da secretaria não oficializar nenhuma das ações da Assistência Social. Em contato com a Secretária de Assistência Social, a atendente  orientou que essas informações eram pra ser tratadas diretamente com a imprensa, que se limitou a encaminhar à reportagem apenas uma nota sobre o fechamento do Centro, sem dados e referências a documentos oficiais da prefeitura.

No aguardo do atendimento do -prefeito, algumas pessoas foram impedidas de entrar e tiveram que aguardar no hall de entrada do prédio da prefeitura. | Foto: Catarinas /Sílvia Medeiros

O centro é parte da estrutura criado após o Decreto  Federal 7.053 de 2009 que instituiu a  Política Nacional para a População em Situação de Rua, reconhecendo a responsabilidade da união, estados e municípios  em implantar centros de defesa dos direitos humanos para a população em situação de rua. Além dos cuidados básicos de higiene e alimentação, o Centro Pop oferece atendimento psicossocial com profissionais especializados no atendimento a população em situação de vulnerabilidade.

A psicóloga Aline Sikari, mestranda da UFSC que estuda a população em situação de rua, destaca a importância do Centro como espaço de criação de vínculo, segundo ela além do atendimento prestado, muitas pessoas em situação de rua dão o endereço e telefone do Centro Pop como referência quando buscam emprego. Aline avalia que a retirada desse serviço básico afetará drasticamente o atendimento que vinha sendo feito com a população de rua. “A rotina da pessoa que está em situação de rua em Floripa está totalmente vinculada ao serviço. Se acaba, a pessoa vai ter que voltar a conseguir alimentação de uma outra forma, vai ter que buscar banho na rua de alguma outra forma. Essa interrupção do atendimento quebra totalmente uma organização que essas pessoas já estavam conseguindo manter, mesmo estando na rua”, frisou a psicóloga.

“Eu não vou pra lá só pra comer ou tomar banho, eu vou pro Centro Pop por que lá eles me dão carinho, me tratam bem e escutam o que eu tenho pra falar”, relatou Viviane Carvalho, que vive na rua há um ano e meio.

Viviane é uma das centenas de mulheres e homens que vive em situação de rua na capital catarinense. O Movimento de Rua do estado não tem os dados precisos sobre a quantidade de pessoas que dormem debaixo das marquises e viadutos da cidade, mas ressalta que a população cresceu muito nos últimos meses.

Aline, ex-moradora de rua, encontrou no Centro pop o apoio para mudar de vida. | Foto: Catarinas/Sílvia Medeiros

De acordo com a nota da Prefeitura divulgada a imprensa, os serviços prestados à população de rua não serão afetados. O Centro Pop que fica junto a Passarela Nego Quirido será chamado de Centro Voluntário Floripa Social (CVFS) e vai garantir atendimento de alimentação, banho e cortes de cabelo. O novo espaço do Centro Pop será no antigo prédio da Casan, que passará a atender a população de rua, somente após reforma do prédio. A prefeitura não informa quando começa ou termina as obras nesse novo espaço. Enquanto isso o atendimento dos profissionais, que envolvem psicólogos e assistentes sociais, serão feitos por outros especialistas indicados pela Secretaria de Assistência Social.

O atendimento feito pelos funcionários do Centro Pop fez toda a diferença para Aline Silva dos Santos. Ela esteve em situação de rua durante três anos e agora mora numa casa alugada no bairro Saco dos Limões. Aline, que foi vítima de um acidente grave, conseguiu através do Centro Pop encaminhamentos para sua aposentadoria por invalidez. Além da parte burocrática, ela encontrou nas profissionais do espaço a ajuda para largar a dependência química e sair da situação de rua.

“Acho que tem muito o que melhorar dentro do centro, a gente já fez várias denúncias do espaço, algumas até de violência contra mulheres que moram na rua, mas acho que parar de atender não é a solução”, afirma.

Aline explica que essa reação do movimento não é uma posição contrária aos voluntários, mas que ela entende que deveria ser uma obrigação da prefeitura. “A gente que vive na rua sofre preconceito a toda hora, a gente não tem direito a nada, o único espaço que a gente se sente gente é no Centro Pop e agora o prefeito quer nos tirar”.

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