Foto: Rede Brasil Atual

O golpe é misógino do início ao fim

Postado em 13/07/2017, 9:45

A ocupação da mesa do Senado ontem pelas senadoras da oposição tem um significado que não pode ser deixado de lado pela esquerda. A aprovação da reforma trabalhista ontem foi o maior golpe, depois da destituição misógina da presidenta legitimamente eleita. Não existem dúvidas de que as maiores atingidas pela reforma serão as mulheres trabalhadoras – assim como são elas as que em maior número chegam novamente ao mapa da fome do qual o Brasil havia saído nos governos do PT. Mulheres e negras. E isso não apenas nos itens da Reforma que citam diretamente as mulheres, como no caso do trabalho das grávidas em situações de insalubridade, desde que o patrão apresente um atestado de que não será prejudicial.

A reforma atinge principalmente as mulheres em todos os todos os itens, reforçando a precarização e instabilidade no emprego, a vulnerabilidade das mulheres em relação ao assédio (moral e sexual) no trabalho, a informalização do contrato de trabalho (acentuando uma situação que vinha sendo revertida, inclusive com a lei do emprego doméstico), a liberação das empresas da obrigação de fornecerem condições dignas de trabalho, incluindo creches. A grande ruptura de classe representada pelo que foi aprovado ontem tem gênero e tem raça.

Se os sindicatos e os partidos e organizações de esquerda não perceberem isso, caminharão no sentido inverso da história, continuarão reproduzindo as hierarquias – não apenas de poder dentro de suas organizações, mas também de sua agenda política e de seus trabalhos de base. 

O golpe é misógino do início ao fim, e o protagonismo e a resistência demonstrados pelas senadoras ontem nos dizem que lutar contra o golpe e os retrocessos é também lutar contra a misoginia e o racismo incrustados nos sistemas políticos e de poder no país.

Sônia W. Maluf é antropóloga, jornalista e professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), docente do Departamento de Antropologia e do PPGAS/UFSC.