Feminismo, jornalismo e artes em movimento

Postado em 27/07/2016, 20:51

As artes e o jornalismo mantêm relações conectadas no exercício de ler as realidades e os mundos em suas diversas facetas. Numa sociedade marcada por injustiças, não basta, porém, observar o fato e interpretá-lo, esses contadores da história de seu tempo são confrontados pelo desafio de transformá-lo. A rede criada pela campanha de financiamento do Portal Catarinas mostrou que jornalismo é também movimento quando traz um novo olhar para questões urgentes, convenientemente negligenciadas e cobertas de estereótipos e tabus.

Mesmo que não cause tanta repulsa quanto em tempos recentes naqueles que ignoram seus conceitos, o feminismo ainda está distante de ser reconhecido para a maioria da população como necessário para um mundo mais humano. É para diminuir essa lacuna de conhecimento que o balançar da sociedade por meio da música, do teatro e das artes plásticas se faz tão oportuno.

imagem

Arte de Pati Peccin

Hoje, 28 de julho, mulheres das artes apresentam seus trabalhos na Fundação Cultural Badesc, centro de Florianópolis, em comemoração ao lançamento do portal. As cantoras Renata Swoboda e Dandara Manoela, as atrizes Thuanny Paes, Michele Mafra, Franco, Sarah Motta do NEGA – Negras Experimentações Grupo de Artes, a artista plástica Pati Peccin e a DJ Alexandra Peixoto serão as atrações da noite.

Elas não participam da iniciativa por acaso. Em poucos minutos de conversas com essas artistas, é fácil identificar que comungam de experiências peculiares ao universo feminino: foram subjugadas em vários momentos da vida pelo simples fato de serem mulheres. Entre elas, há mulheres negras, para as quais as opressões se intensificam sobremaneira.

Em homenagem ao portal, Pati Peccin preparou uma exposição digital com obras de sua autoria que refletem sobre a necessidade de libertação das mulheres. “Procuro na vida e na arte uma identidade como mulher. Percebo que nas gerações passadas criaram-se estereótipos femininos que não se enquadram nos dias de hoje, mas ainda assim há tabu quando se fala em libertação da mulher. O vermelho no meu trabalho remete ao sangue, uma cor muito ligada ao nosso universo, visceral, dramático e afetivo. É um processo de criação instintivo, que revela essa inquietação”, conta a artista sobre o trabalho e diálogo com os feminismos.

renata

Renata Swoboda

Parceira do projeto, Renata vai cantar músicas próprias e lançar uma composição inédita. Ela que já fez parte de uma banda feminista e tem composições que confrontam a “masculinização” da sociedade, acredita que é dever da arte questionar os padrões e trazer a “voz dos inconformados e reprimidos”. “Ser mulher na música é um ato feminista, aliás ser mulher já é um ato feminista. Vejo o Catarinas como um acontecimento revolucionário e altamente compatível com a possibilidade (que já vem se concretizando) de um novo mundo”, diz a cantora.

Ela defende que os movimentos precisam ir além da superação da desigualdade entre os sexos, avançando para a mudança de toda a lógica da sociedade, pautada em um sistema patriarcal. “O problema é que o mundo, o sistema e as dinâmicas relacionais foram todas demarcadas por homens e não queremos nem ser iguais porque nem acreditamos em tais demarcações. Quero ser igual pra demarcar também, fazer valer o que acredito”, afirma.

Sinto o machismo na pele
“Sinto o machismo todos os dias na minha pele”, diz a cantora Dandara Manoela que atua em duas formações musicais, no Seu Baldecir e na banda de mulheres de samba-reggae Cores de Aidê. Sua pluralidade musical também representa um símbolo de resistência das manifestações culturais afro-brasileiras e afirmação da mulher negra no campo cultural. Ela preparou um repertório especial para a noite com músicas de mulheres brasileiras, principalmente negras.

dandara

Dandara Manoela

Há quase três anos em Florianópolis, a campineira percebeu que existe uma “forte” rede de apoio entre as pessoas negras. “Interessante destacar que quem toma frente de grande parte dos espaços de luta são as mulheres negras, e isso tem sido inspirador para não permitir que as opressões de gênero junto com o racismo, nos desanimem de seguir”, destaca.

Acadêmica de Serviço Social na UFSC, Dandara não tem somente o nome de guerreira, sua vida tem sido de lutas cotidianas. É através da música que tenta vencer as opressões  direcionadas a ela por ser mulher e negra. “Desde sempre a sociedade busca me dizer quais lugares eu deveria estar, quais seriam os meus espaços, o que eu deveria fazer, enquanto mulher, enquanto mulher preta e esses não são os de prestígio. O estudo está diretamente ligado com isso, até mais, afinal, a academia não é lugar de mulher preta, entrar numa universidade pública pra mim foi extremamente simbólico”, afirma.

Pela primeira vez, a cantora participa de uma ação das Catarinas. “Acho importante e necessário, que tenha um jornalismo responsável se debruçando sobre essas questões. Gosto quando leio ‘somos muitas’ e em paralelo consigo perceber isso através das ações do projeto, mais ainda de saber que esta ganhando corpo, trazendo uma proposta diferenciada ao lançar esse portal.”

Dandara tem acompanhado atuações de mulheres em rede, para a geração de renda, principalmente no cenário musical. Recentemente, o “Cores de Aidê’, montou um bloco que tem como proposta reunir mulheres pra tocar, dançar e cantar. “Isso certamente gera empoderamento e fico muito feliz de fazer parte.”

Não sou para o consumo masculino
“Ser feminista é resistir”, como acredita a ciberativista e DJ Alexandra Peixoto. Ela insiste com sua discotecagem, num país onde a maioria dos DJs são homens. Parceiras de outras ações e conselheira editorial do portal, Alexandra denuncia o machismo nas redes e no blog pessoal, compartilhando notícias, artigos, reportagens e textos que ajudem na “desconstrução diária do patriarcado”.

Alexandra Peixoto

Com uma atuação profissional estritamente ligada os movimentos feministas, ela destaca sua participação na seleção musical do carro de som da Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, em 2010, e a discotecagem que fez na Caminhada Lésbica e Bissexual, em São Paulo. “Participei de inúmeros protestos, festas e atos feministas. Procuro executar músicas que empoderem as mulheres e a cada letra de música que percebo um conteúdo machista, cuido de não reproduzir e sempre problematizar quando ouço”, relata.

Assumidamente lésbica, Alexandra cansou de ser chamada de sapatão nas ruas. “Hoje em dia eu me viro e respondo: sou mesmo, e daí? Sou oprimida por ser mulher lésbica em praticamente todos os espaços públicos, pois meu estilo de me vestir e do meu cabelo não são para o consumo masculino.”

A ciberativista defende que só com diversidade de opinião e democratização “radical” da comunicação no país será possível pensar numa sociedade mais justa, igualitária, com garantia de direitos para todxs. “Espero contribuir com as pautas, trazendo conteúdo e material de pesquisas. O portal será um lugar de grande importância para a população de SC se informar sobre as questões urgentes, que envolvem os direitos das mulheres, principalmente agora, em um contexto político de retrocessos inaceitáveis nos direitos sexuais e reprodutivos no Brasil.”

Ser mulher negra em Santa Catarina
Construído com histórias pessoais, referências artísticas e inquietações políticas, o espetáculo Preta-à-Porter questiona os padrões da sociedade e provoca reflexão através da arte, trazendo mais perguntas do que necessariamente respostas. O grupo é majoritariamente composto por mulheres negras, o que fez do espetáculo uma referência em questões de gênero com recorte étnico.

nega

Coletivo Nega

“Levamos para a cena situações extremamente problemáticas que nos acompanham desde pequenas e que não acontecem com qualquer mulher no Brasil. É muito importante e significativo para nós ver a identificação das mulheres negras com o espetáculo, isso mostra que não estamos sós. Trocamos experiências com as nossas ações, apoiamos umas às outras no que diz respeito à sororidade e descolonização de nossas mentes”, explicam as atrizes.

Lidar com o racismo nesse estado majoritariamente branco é mais desafiador do que em outras regiões do Brasil, pela forma velada como a discriminação se manifesta. “Estamos aos poucos tentando reconstruir nossa identidade e mostrar que existimos nesse estado que passa a imagem branca e europeia. Tem pretx no sul, sim.”

A construção dessas mulheres em personagens políticos de transformação do meio social é uma resposta às opressões racial e de gênero que sofreram ao longo da vida. “Ser mulher negra hoje é se auto-descobrir e identificar suas irmãs. Não é fácil, partindo apenas desse princípio, mas é instigante.”

Para o coletivo Nega, o Portal Catarinas tem o papel de levar informações e notícias que promovam a politização e conscientização das pessoas, dando espaço para mulheres não visibilizadas pelas mídias tradicionais. “Entendemos como crucial agregar as mulheres e suas especificidades. Esperamos um comprometimento com conteúdo e mais espaço para as jornalistas negras nesse novo portal.”