Representantes falam sobre a necessidade de políticas públicas que respeitem os saberes dos grupos. Catarinas/Foto Dieine Gomez

Mulheres indígenas discutem práticas de saúde nos saberes e fazeres femininos

Postado em 06/08/2017, 11:09

 

Contribuição de Vandreza Amante.

Demarcação de terras e respeito aos saberes tradicionais são sinônimos de saúde para os grupos indígenas, como afirmam representantes que participaram da mesa redonda “Saúde das/para as Mulheres Indígenas”, durante a semana de atividades do Fazendo Gênero e Mundos de Mulheres. Elas são ativistas que atuam cotidianamente por acesso aos serviços básicos de saúde, melhores condições de atendimento nos hospitais e políticas públicas que valorizem os saberes e fazeres femininos dentro e fora da aldeia.

Eunice Antunes (chamada de kerexu yxapyry em sua língua), Mbyá-Guarani do Morro dos Cavalos/ SC, Joziléia Daniza Jagso, Kaingang e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UEFPEL), Osana Gonçalves, da Articulação das Mulheres (Amisul), falaram sobre as principais questões que envolvem a saúde dos povos originários do Brasil. Luiza Garnelo, pesquisadora da Fiocruz conduziu o debate.

Para Eunice, a demarcação de terra é saúde porque garante o acesso ao modo de viver Mbyá-Guarani, o qual o seu grupo pretende dar continuidade. Segundo ela, a ingestão de produtos industrializados está fora do contexto do sistema alimentar do grupo, o que vem alterando o cotidiano da comunidade. A representante destacou desequilíbrios consequentes dessa relação como as doenças que não podem ser curadas na casa de reza e a antecipação da menstruação das meninas, que atualmente inicia por volta de 10 anos de idade.

A parteira Matilde Koito de 63 anos, anciã dos saberes kaingang, conta que aprendeu o ofício com a avó aos 18 anos. A guardiã saiu do debate com a esperança de ver as crianças nascerem novamente na aldeia. Ela foi parteira por mais de 30 anos e parou de atuar há cerca de 20 desde que políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS) passaram a estimular o nascimento nos hospitais. “As mulheres hoje precisam ir ao hospital e muitas vezes são mal atendidas e sofrem. O meu sonho é continuar ajudando as mulheres e pegar as crianças nos meus braços”, conta.

Assista ao depoimento de Matilde

Enquanto há um retorno à realização de partos em casa por mulheres de classes sociais mais elevadas, com o auxílio de doulas, as indígenas estão sendo controladas pelo sistema de saúde com suas políticas de estímulo aos partos hospitalares e não valorização dos saberes populares, como avaliou a debatedora da Fio Cruz.

Segundo a pesquisadora, há uma lacuna nas políticas públicas em relação aos saberes indígenas que entendem a saúde como constituição integral do ser humano. Sobre a medicalização nas comunidades, ponderou: “A medicalização é um procedimento que perpassa a vida das mulheres e essa violência é uma metodologia encontrada em todas as classes sociais”.

Parto e políticas colonizadoras
Há uma vida inteira de preparação para uma mulher indígena realizar um parto, como afirmou Joziléia em defesa do parto natural e da valorização da parteira tradicional. “A criança é como uma fruta, quando ela está madura cai”, disse sobre um ensinamento repassado pela avó. A ativista fez críticas ao parto induzido e à cesariana, parte da política de integração à sociedade nacional, que segundo ela, seria o motivo da gradativa perda dos saberes e fazeres femininos, na alimentação e no parto. Para a ativista, o incentivo à prática da cesariana é uma política colonizadora de controle de natalidade dos grupos indígenas.

Conforme a palestrante, a imposição cristã desvalorizou os saberes femininos das benzedeiras e continua presente em seu formato de catequese até os dias de hoje. “Quem disse que a bíblia é sagrada?”, questionou em tom de protesto.

A pesquisadora fez críticas à criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) que depois se tornou FUNAI, mas em nada mudou sua prática colonialista que colocou o grupo Kaingang em um processo de escravização dentro de territórios confinados. “Quem não trabalhasse não receberia comida. Por isso minha avó morreu tão cedo. Os homens tinham que ser chefes de posto”.

Atividade indígena durante a Marcha Mundos de Mulheres por Direitos. Foto: Catarinas/Dieine Gomez

Medicalização e assédio
Osana deu ênfase à violência direcionada aos grupos indígenas com políticas estatais de desenvolvimento e pela bancada governista que ela chama de “BBB” (boi, bala e bíblia), na qual ruralistas apoiados por evangélicos têm atuado fortemente contra os territórios dos povos originários gerando inúmeros conflitos. Em sua abordagem, denunciou a devastação das terras com agrotóxicos utilizados na monocultura em terras vizinhas.

Durante sua fala, protestou contra a inserção pelos brancos do uso de álcool e drogas nas aldeias e descasos na utilização de medicamentos nos serviços de saúde. “Tinha uma mulher que fazia remédio em jarra e as crianças eram obrigadas a tomar. Nem sabiam o que era. Distribuíam cartelas de acido acetilsalicílico infantil e não explicavam como se utilizava e as crianças comiam como se fosse bala. Quem nos drogou primeiro foi o governo. Agora muitos médicos receitam remédios tarja preta”, criticou.

Ela denuncia a Funasa e a Sesai pela falta de capacitação dos trabalhadores em saúde, por assédio sexual e moral. E questiona: Como estar bem hoje diante de tudo isso? A palestrante aponta caminhos como a aliança com os movimentos sociais e a valorização dos conhecimentos tradicionais dos grupos buscando as raízes do que são referências identitárias. Ao final deixou uma mensagem: “Você nunca sabe a força que tem, até que sua única alternativa é ser forte”.