Programação começa no sábado e termina na quarta-feira de cinzas/Foto: Paula Guimarães

Florianópolis vai ter carnaval feminista com Cores de Aidê

Postado em 24/02/2017, 16:42

Sim, elas podem estar onde quiserem. E são fortes o suficiente para segurar um tambor por horas. Com mais de 100 mulheres, o Bloco Cores de Aidê faz sua estreia oficial no carnaval de Florianópolis. Depois de meses de ensaio e integração, o bloco de dança e percussão sai nas avenidas da capital catarinense com sua mensagem de samba-reggae contra todas as formas de opressão. A programação começa no sábado com um cortejo na Praia da Armação, às 22h, e segue até quarta-feira de cinzas, quando ocorre o encerramento, às 10h, na Praça XV, centro.

Confira o evento com toda a programação aqui. 

A cantora e compositora Dandara Manoela espera que mais mulheres sejam impactadas e se juntem ao bloco com o lançamento oficial que tem como tema “Quem é essa mulher?”. “A expectativa é fortalecer essa união entre as mulheres. Queremos mostrar simbolicamente, através do toque do tambor do samba-reggae que a mulher pode estar onde quiser. Para o povo afro-brasileiro, para a questão étnico-racial, o carnaval é muito importante, mas também há muita reprodução de machismo, por isso essa união é significativa para que possamos lutar e nos divertir com tranquilidade”, afirma.

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Foto: Paula Guimarães

A liberdade em Aidê
Aidê traz no nome e na essência a figura mitológica de uma mulher negra que lutou bravamente por sua liberdade, e a crítica à opressão das cores, em alusão às discriminações étnico-racial e de gênero. Essa liberdade inegociável inspira o bloco na performance, na atitude das suas componentes e no canto forte como um grito. Ao centro da formação, a dançarina evoca a ancestralidade e encarna a força de mulheres como Aidê, em músicas como “Negra”, “Quem é essa mulher” e “Índia”.

“Naquele momento é a Aidê ali dançando, trazendo a ancestralidade daquela mulher forte. Acredito nesse axé que circula, que a gente emana e recebe. É isso que faz ser tão visceral. Às vezes tenho dificuldade de cantar porque fico com a voz embargada. Ainda dói e se sinto essa dor é porque tem mulheres negras sendo assassinadas e objetificadas. Esse recado, a gente precisa passar”, assinala Cauane Maia, também cantora.

“Negra ô ô ô
Esse turbante na cabeça
Esse teu porte de rainha
A nos mostrar como a história foi injusta e cruel
Negra ô ô ô
Pra reavivar nossa memória
É que caminhas tão altiva
Soberana desde a ingrata escravidão
Negra aaa
Sou cativa da luta luta aaa
Contra a inglória e a disputa
A liberdade é nossa glória
Bato o tambor no coração
Pra semear e cultivar o amor”

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Foto: Paula Guimarães

Samba-reggae
Para Cauane, o samba-reggae é uma expressão artística revolucionária no combate às opressões, capaz de tocar as pessoas com sua música dançante e ao mesmo tempo de protesto. O gênero surgiu na década de 80 com o grupo Ile Aiyê na Bahia, como um movimento de valorização da estética e cultura afro.

“O movimento começa a romper com a ditadura da beleza e as mulheres passam a perceber que o cabelo crespo tem a sua estética interessante. Elas começaram a incorporar elementos da matriz africana que antes viviam escondidos”, explica.

Ao final de cada apresentação, é comum a abordagem do público, como aconteceu no primeiro ensaio geral, em Jurerê Internacional. Nesse dia, várias mulheres abandonaram seus locais de trabalho para conversar com as integrantes. “Elas também sentem aquilo que a gente sente. É forte saber que as mulheres não têm espaço de expressão política e artística. A gente pode ser combativa e passar o recado através da arte, da potência do tambor”, acredita Cauane.

Acompanha o Cores de Aidê o bloco “É da nossa cor”, formado por crianças da comunidade Monte Serrat, onde geralmente ocorrem os ensaios.  Todas as apresentações são abertas e gratuitas. Quem quiser comprar o abadá pode entrar em contato pelo telefone (48) 99917-6664 ou pela página www.facebook.com/coresdeaide.

“Ter um bloco com mais de 100 mulheres é muito forte. É a primeira que saímos com todas as alas para entreter e ser ouvida. É na rua que o samba reggae tem sentido, nesses momentos a gente percebe a força e consegue ver na essência esse movimento. O samba reggae tem um recado para dar e ser um bloco de mulher também denota um posicionamento político”, afirma a integrante.

Foto: reprodução

Foto: reprodução

Confira a agenda:
abada

 

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