Brasília, 24 de maio de 2017. Foto: Sílvia Medeiros

A ditadura em que vivemos

Postado em 26/05/2017, 16:19

O Portal Catarinas recolheu relatos de mulheres que participaram do protesto, em 24 de maio, no Distrito Federal, pela saída de Michel Temer (PMDB) da presidência da república e contra as reformas trabalhista e da previdência. Conheça as impressões das mulheres catarinenses que viveram estes momentos.

Muitos sentimentos contraditórios nesse dia histórico: sentir a força do poder popular e nossa capacidade de mandar em nossos destinos, sentir a brutal violência policial representando os interesses dos verdadeiros ladrões, grandes empresários, banqueiros e seus lacaios, os políticos de plantão, a apreensão de se ver sob ataque, assistindo os que sofrem com os efeitos das tais “armas não letais” e as letais também; acompanhar um estudante ferido, ter dificuldade em ajudá-lo, a tristeza de saber que as marcas nele serão para sempre, ver que a polícia está plantada no hospital, receber tanta solidariedade com esse companheiro e exercer a solidariedade, fortalecendo nosso sentimento humano e de classe. Cansaço, tensão, medo, alegria, tristeza, companheirismo, fraqueza individual e força coletiva, dor…

Nas semanas anteriores organização, convocar pessoas, ver ônibus, pensar em quem, em quantos trazer, muita preocupação, menores e pessoas com dificuldade de locomoção não devem ir, esperamos muita repressão.

Nos dias anteriores muitas reuniões de organização em Brasília, do próprio sindicato nacional, do Fórum Nacional (FONASEFE), do conjunto das Centrais. Todas reuniões muito ruins e muito confusas. As coisas pareciam mal organizadas, algumas centradas em debates não relevantes, como quem fala em que momento ou em uma divergência difícil de explicar sem imaginar conspirações sobre o horário de saída do ato. Esta última permanecendo sem solução e que acabou parcialmente suplantada porque o grande número de pessoas fez com que o horário de saída da marcha durasse algumas horas. Outras recebendo informes de reuniões com o Governo do Distrito Federal, sobre a atuação da polícia, o trajeto, a disponibilidade de atendimento como ambulâncias, ou da distribuição de água tão necessária no planalto brasileiro.

Trabalhamos muito nos dois dias anteriores e, além de receber e repassar informes, o foco principal do trabalho foi preparar organização e material de segurança e saúde, esperávamos violência policial brutal. Buscar coisas que amenizem os efeitos das bombas de gás ou de efeito moral e dos spray de pimenta. Tentar definir alguns responsáveis com representação e respeito de suas bases para coordenar o movimento de maneira a que o número de gravemente feridos fosse o menor possível e o efeito político da marcha fosse o maior possível.

Sabíamos que a organização centralizada buscava ato pacífico, mas também conhecemos por um lado a legítima revolta popular com a retirada de direitos duramente conquistados, a repressão que acontece dispersa nas periferias e no campo e os ataques ao patrimônio público, tanto com a corrupção, mas também com a destruição do patrimônio da nação em serviços públicos, como na entrega e destruição do patrimônio natural e cultural. E sim, quem recebe tanta violência cotidianamente tem o direito à legítima defesa. Não, vidraças, portas e mesas não são mais importante que as pessoas, a vida e o futuro. Por outro lado também contávamos com os infiltrados, organizados para criar confusões em momento adequados somente para justificar a violência policial que estava programada.

Apesar de que em vários momentos nem mesmo de uma desculpa eles se utilizaram e atacaram centenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras, estudantes, sem terra e sem teto, somente por estarem ali, todos desarmados e lutando apenas com suas ideias pelo seu futuro e pelo país.

Também recebemos a extremamente preocupante informação de que todos seríamos revistados, o que em si é óbvio foco de tensão, já que por um pinho sol a (in)justiça brasileira mantém um cidadão preso. Outra informação que nos preocupava muito era o fato de que os policiais que se juntariam à manifestação, mesmo que revistados, permaneceriam armados. Eu sei que policiais são trabalhadores e acho muito importante que eles como cidadãos decidam participar das manifestações, já que os direitos deles também estão sendo retirados. Mas eles trabalham exatamente no órgão de repressão e são e foram em muitos momentos os agentes da repressão e de uma série de táticas de infiltração (P2) de atos para desmoralizar o movimento. A informação era de que seriam em torno de 5 mil policiais participando do ato e que estes poderiam permanecer armados no meio da marcha.

O dia começa bem cedo, receber as delegações, sentir o clima, a cidade – com um locaute de ônibus urbano para forçar o repasse do subsídio – já amanhece confusa. As notícias dão conta de imensos engarrafamentos. Nosso ônibus chegam às centenas, aos milhares, pessoas cantando palavras de ordem, bandeiras para fora, um sentimento de força popular se criando.

Chegamos ao Mané Garrincha, muitas tendas armadas, carros de som, alimentação de algumas delegações, trabalhadores ligados a todas as centrais e também a nenhuma delas. Muitos estudantes, juventude de periferia, idosos, sem teto e sem terra. Algumas centrais com enorme aparato, todos uniformizados, Paulinho pelego da Farsa fazendo discurso (blerg), muitos dirigentes e lutadores e lutadoras valorosos da classe trabalhadora chamam a luta, falam da conjuntura, debatem o desfecho pós temeroso, defende poder popular, diretas já, eleições gerais já, Lula 2018, Volta Dilma, entre muitas outras falas. A maioria fala em greve geral. Mas tod@s temos a certeza de que se não estivermos unitários na luta pela democracia, pelos direitos e pelo Brasil do povo brasileiro, do nióbio, do petróleo, do aquífero Guarani, da Amazônia, nosso futuro é a destruição, a fome e a dependência.

Por volta das 11h30, as centrais pelegas cumprem sua promessa e começam a marcha, Força Sindical e Nova Central organizando os seus e começam a se dirigir à Esplanada dos Ministérios. Sua passagem é muito lenta, devido à revista.

O decidido na reunião conjunta é que as centrais avaliariam pela presença o momento mais adequado para sair a marcha. As outras centrais e movimento vão se incorporando aos poucos, a partir das 12h30. Mas não ficam buracos, a quantidade de gente era impressionante.
O Sinasefe sai junto com Fasubra e Andes depois das 13h, antes de chegarmos à rodoviária as informações dão conta de que havia pessoas na frente do Congresso. Como esperado, há confusão durante a revista e temos informação dos primeiros atos de repressão, violência, o cordão policial é rompido e a revista dos demais não acontece. Eu passei depois desses episódios.

A caminhada está muito linda, quando passamos embaixo dos viadutos próximos à rodoviárias, pelos desníveis, vemos marcha até onde a vista alcança e começamos a ter a dimensão. Fazemos contas, recebemos informação de que a polícia teria divulgado o número de 150 mil pessoas, éramos mais, mais de 200 mil sabemos, talvez até mais que isso. Não há praticamente nenhuma cobertura da mídia burguesa, mas recebemos pelos celulares que eles divulgam os risíveis números de 30 ou 40 mil pessoas. Novamente o fato de eles noticiarem e de tentarem criar versão é sinal do quanto o movimento estava sendo vitorioso.

Notícias da prisão do Aécio e da suspensão dos trabalhos da comissão da reforma animam o movimento.

Mas começam a se intensificar as notícias de aumento da violência policial e da repressão. Ainda vemos e ouvimos nada ou muito pouco. Vemos fumaça. Até que o caminhão de som do Andes para e temos que agir de maneira organizada. Não podemos aceitar simplesmente dispersar nosso movimento, que é democrático, sem resistir à violência de Estado. Não podemos deixar de dar o recado contra as reformas. Pessoas idosas, com dificuldade de locomoção, com problemas de saúde, como asma e menores são orientados a não seguir. Apenas permanecer apoiando a marcha. Os demais, de maneira pacífica, porém firme são orientados a continuar.

Seguimos e nos deparamos com o cenário de guerra tão conhecido em outros momentos, o mais recente no dia 29 de novembro. Bombas arremessadas dos policias em terra ou no helicóptero, tiros, cavalaria, fogo, dessa vez foram muitas idas e vindas, se aproximar, recuar, retornar, avançar um pouco mais, ajudar pessoas, vinagre?, leite de magnésia?, calma, usa isso, não beba água, gargareja, passa em volta dos olhos, vocês está muito mal, melhor se afastar, vou com você, vou voltar, não corre, corre, até que vou tentar fazer um “ao vivo” para denunciar a violência e vejo as ligações. Fico sabendo da situação do Vitor, o que fazemos, vou lá. Saindo da manifestação uma bomba cai muito perto, seguimos.

Fiquei algumas horas em frente ao hospital. Converso com pessoas, descobrir o que houve, procurar informações, tentar vê-lo, muitas ligações, imprensa golpista urubuzando, polícia com sala dentro da emergência, muitos feridos dando entrada, outros militantes ali na porta procurando pessoas e informações, busca advogado, busca contato com organização, direções sindicais, recebo contato destes e do Pedro Uczai, enfermeiras procurando parentes e amigos dos pacientes, mais ambulâncias e carros da polícia trazendo gente, engarrafamento. A tristeza por haver um lutador ferido vai contrastando com a força da solidariedade, chegam e saem pessoas dispostas a ajudar, o Vitor recebe solidariedade de pessoas de todo o país. Essa alegria contrasta com o nojo dos que tripudiam do sofrimento de um jovem, acéfalos repetidores de discurso contra os seus, contra seus próprios interesses. Mas ficamos mais fortes quando enfrentamos isso juntos e também nas redes sociais, na guerra da informação estamos atuando e na luta. Mais força!

Me fez lembrar um dia que fui ao Maracanã ver Flamengo e Vaco, eu tinha uns 18 anos, ainda era o velho Maraca e lá havia 150 mil pessoas e eu pensei: no dia em que essa força popular que sinto na torcida do Flamengo for direcionada e organizada para a luta pela nossa libertação, venceremos…

O engarrafamento gigante quase me faz perder o voo, aeroporto, um chopp, avião, desmaio, chego em casa, não tem água, muitos esclarecimentos via whats e lá se foi um dos dias mais marcantes da minha vida.

Na luta!!!
Venceremos!!!

Elenira de Oliveira Vilela é professora do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) em São José.