Policial se aproxima para impedir a gravação de imagens da ação em Navegantes, no dia 30 de junho.

Cresce violência contra profissionais de imprensa em coberturas de protestos

Postado em 05/07/2017, 18:08

“Eu vi que ele estava vindo em minha direção e achei que ele iria pedir para eu parar de gravar, jamais imaginei que ele arrancaria o celular das minhas mãos e me responsabilizaria pelo protesto”. O relato é da jornalista do Portal Catarinas, Sílvia Medeiros, que cobria a paralisação realizada na BR 470, litoral norte de Santa Catarina, no último 30 de junho. Jornalista de movimentos, Sílvia reportava as atividades da Greve Geral quando foi abordada por um policial militar que tomou o seu equipamento de trabalho, a acusou de ser uma das responsáveis pela mobilização e a ameaçou de responder na justiça com pagamento de multa.

A jornalista fazia uma gravação em vídeo, interrompida quando o PM se aproximou. De acordo com Sílvia, o policial arrancou o celular de suas mãos, tentou acessar o conteúdo, mas o aparelho estava bloqueado. Em seguida, ele perguntou “quem é o líder?”, enquanto a profissional se identificava e se defendia dizendo estar a trabalho. “Pedi para o policial devolver o celular que é a minha ferramenta de trabalho. Ele só me devolveu depois de fotografar meu documento, eu apresentei a carteira da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj). Ele disse também que eu era um deles e que seria mais uma a pagar a multa de mil reais'”.

Na mesma ação, dois integrantes do Movimento de Trabalhadores/as Sem Terra (MST/SC) foram detidos, três ativistas ficaram feridos e o caminhão de som do movimento foi apreendido. O protesto, que aconteceu em um trecho da rodovia próximo ao município de Navegantes, foi reprimido com balas de borracha e bombas de efeito moral.

Não é de hoje que se coleciona relatos de violência a jornalistas em protestos e outras atividades de mobilização popular. No entanto, em medida que aumenta a frequência de ações de resistência à conjuntura, a prática se intensifica. No último período, jornalistas de movimentos e de veículos independentes têm sentido na pele a violência policial. Os relatos são de agressões verbais, físicas e até prisões.

Foi o caso das jornalistas do Coletivo Maruim, Joana Zanotto e Natália Pilati que, em dezembro de 2015, foram detidas enquanto cobriam a desocupação de um terreno às margens da SC 401, no bairro de Ingleses, no norte da ilha. As jornalistas reportavam a ação de reintegração de posse na Ocupação Dandara quando foram capturadas pelos policiais e conduzidas à delegacia. Além delas, o repórter fotográfico do Diário Catarinense, Marco Favero, também foi detido.

Joana Zanotto, de camisa cinza e braços erguidos, foi levada para a delegacia junto com mais 40 pessoas e precisou assinar um termo circunstanciado para ser liberada. | Foto: Tito Luiz Pereira

Para Joana, a postura da Polícia Militar (PM) em relação à sociedade civil é de uma corporação violenta que usa da força para reprimir os cidadãos e não defendê-los. “Nós jornalistas estamos na linha de frente nos enfrentamentos e estamos desprotegidos. Principalmente nós da mídia independente, pois assumimos esse papel de defesa da sociedade civil e não temos o respaldo jurídico que têm os colegas da mídia comercial”, argumenta.

Os envolvidos chegaram a ser chamados para uma audiência em 2016 que foi cancelada, depois disso, não tiveram mais informações da tramitação. Os jornalistas também entraram com uma representação na corregedoria da PM, através da assessoria jurídica do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (SJSC), mas até o momento nenhuma audiência foi agendada e o processo segue parado na justiça.

Veja aqui o vídeo em que a jornalista do Maruim, Natália Pilati, é detida.

Em outra circunstância, mais uma profissional de comunicação sofreu agressão policial, enquanto trabalhava na cobertura da Marcha da Maconha, em Florianópolis, no dia 06 de maio. Bianca Taranti, produtora do portal Estopim foi agredida verbal e fisicamente por um policial militar sem identificação. Ela conta que estava com dois colegas de trabalho, cobrindo a marcha, bem no início, próximo ao cordão policial. Numa parte do trajeto, um dos PMs alegou que Bianca não poderia filmar e que o seu colega fotojornalista não poderia fotografar. Ela explicou que era profissional da mídia e que estava somente reportando. A partir daí, o impasse entre policiais e repórteres se intensificou.

“Mais à frente, no meio de uma briga entre manifestantes e policiais, o PM começou a gritar: ‘filma agora sua vadia, filma agora sua vaca’. Outro policial foi para cima do fotojornalista para agredi-lo e eu puxei o PM pra defender o meu colega. Aí o os dois policiais vieram, nos encurralaram em um hotel, nos bateram bastante e jogaram spray de pimenta nos nossos olhos. Iam ficar com meu celular, não fosse o nosso editor negociar com eles”, relata.

A jornalista Bianca foi agredida no rosto por um policial militar sem identificação que reprimia violentamente manifestantes da Marcha da Maconha em Florianópolis | Foto: Ramiro Furquim

Fato semelhante ocorreu nas manifestações do 8 de março, em Florianópolis, com a jornalista do Portal Catarinas, Clarissa Peixoto. Durante a marcha da Greve Internacional de Mulheres, Clarissa foi agredida verbalmente por um policial sem identificação e chegou a ser empurrada. A tentativa de impedir o trabalho da imprensa ocorreu ao final da transmissão de vídeo ao vivo. “A abordagem mais violenta que aconteceu comigo de 2016 pra cá foi essa do 8M. Mas, não foi a única, sempre somos abordadas com grosseria e violência. Uma leitura mais atenta pode nos mostrar também que ocorre violência de gênero”, diz.

Nas duas situações, nenhuma das vítimas registrou boletim de ocorrência.

Na maioria dos casos, o profissional não registra boletim de ocorrência, o que dificulta uma ação mais incisiva das entidades representativas dos trabalhadores. Aderbal Filho, presidente do SJSC, relata que é muito importante que toda ação de violência ou de impedimento do livre exercício da profissão, seja registrado nos órgãos competentes.

De acordo com o representante sindical, a constatação é que nos últimos dois anos houve um aumento da violência contra os profissionais da comunicação. Na avaliação de Aderbal, assim como no final da década de 70 e início da década de 80, o tempo que vivemos está caracterizado por forte repressão à liberdade de expressão e imprensa. “Diferente do período da ditadura militar, em que se usava de extrema violência contra os manifestantes e, por consequência contra os profissionais de comunicação, a violência atual ganha contornos mais intensos, por ser dentro de um suposto estado democrático de direito, que em tese deveria garantir a liberdade de imprensa e de expressão”.

No relatório anual de violência e liberdade de expressão elaborado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) é perceptível o crescimento da violência contra os profissionais de comunicação. No relatório de 2016, o índice de agressão contra jornalistas teve um crescimento, se comparado a 2015, de 17,52%, sendo 161 casos, destes 30 registrados no sul do país e 10 em Santa Catarina, um deles na cidade de Navegantes, mesma cidade em que a jornalista do Portal Catarinas teve o celular arrancado das mãos.

Mantendo as estatísticas dos últimos três anos, os principais agressores são os policiais militares e/ou guardas municipais, dos 161 caso, 41 são de responsabilidade dos agentes de segurança pública. Sendo que a maior parte registrados em manifestações de rua.

Ao longo do dia, a equipe de reportagem tentou contato com a Assessoria de Comunicação da Polícia Militar de Santa Catarina para ouvi-la sobre os procedimento utilizados pela corporação em protestos e outras situações de conflito. A assessoria da PM informou não ter prazo para a resposta. Até o fechamento da matéria não houve retorno.