As atrizes Bruna Puntel e Uila Roldan na performance SOB Medida/Foto: Lucas Bernardi

Coluna da Barbara Bíscaro

Uma discussão de peso

Postado em 18/12/2017, 16:17

Há algumas semanas fui assistir a performance SOB Medida, dirigida por Gaia Colzani e performada por Bruna Puntel e Uila Roldan. O trabalho discute o tema da gordofobia, expondo os corpos gordos nus das duas peformers. O impacto que o trabalho me causou veio de uma situação específica: no início, as duas atrizes que estão seminuas, escrevem palavras uma no corpo da outra, e depois convidam o público a escrever também em seus corpos. As palavras que elas escrevem em seus corpos eram ou pejorativas do corpo gordo (preguiçosa, flácida, etc) ou uma designação de uma parte do corpo, tipo “bunda” ou “barriga”.

O público começou a escrever palavras como “linda”, “força”, “corajosa” em um exercício de opiniões “politicamente corretas”, em exaltação daqueles corpos evidentemente corajosos, mas explicitamente paradoxais. Eu, de minha parte, escrevi “pneuzinho” – quando a performer me indicou um lugar específico para escrever (aquela protuberância gordinha que se forma embaixo das axilas). Depois percebi que as pessoas ou se recusavam a escrever ou escreviam apenas elogios. Naquele momento eu vi a força das palavras inscritas naqueles corpos: a escritura em caneta marcando literalmente a carne, designando e nomeando preconceitos, medos e hipocrisias em relação ao corpo gordo. As performers ofereciam generosamente seus corpos como suporte dessas palavras, que quando apareciam, ganhavam literalmente peso.

Mas a única palavra “incorreta” foi a minha. Daí, saí de lá com um a pulga atrás da orelha. Pensei, pensei, escrevi, conversei. E percebi que escrever o linda e o corajosa no corpo gordo não apaga a marca profunda de não se estar sob medida. Falo isso porque a beleza do corpo “incorreto” é sempre bem vinda na outra: achamos lindo ser gordo, ser negro, ser gay, possuir alguma deficiência física, mas secretamente, quando colocamos a cabeça no travesseiro, respiramos aliviados por não sê-lo. Me lembrei vividamente da relação com meu próprio corpo, e uma adolescência e fase adulta marcadas pela inadequação física. Eu conheço todas aquelas palavras na carne, mesmo nunca tendo sido alguém designada como gorda, mas também nunca pertencente ao clube das magras.

Quantas vezes eu ouvi de minhas tias e pessoas ao redor frases como: “vai repetir o prato, cuidado porque já está gordinha!” ou “tão nova e com tanta celulite, que horror!”. Implícito nos comentários o alívio por eu ser tão estudiosa, porque para bonita eu não iria servir nessa vida. Desenvolvi com a competência da minha disciplina uma série de comportamentos secretos que visavam disfarçar o medo do meu corpo: nunca usar branco, nunca usar bermudas, nunca tira fotos. Desenvolvi um modo de sentar nas cadeiras no qual eu apoio o peso do pé no metatarso, aquela almofadinha da frente, fazendo com que as coxas não se esparramem e denunciem a gorda que mora em mim.  Usar roupas que valorizem a minha altura e sempre nas provas de guarda-roupa dos filmes que fiz as pessoas comentarem “ah, mas você é uma falsa-magra” porque as saias e calças não passavam nem nas coxas. Quantas vezes chorei em um provador de roupas de loja, me sentindo humilhada quando uma roupa G não entrava. Porque era como se quando as pessoas desviavam o olhar da minha inteligência para o meu corpo, uma enorme sombra se fazia e eu sentia toda a impotência, a inadequação e a incapacidade de estar sob medida.

Na minha família a obesidade é, com toda a força do trocadilho, o elefante na sala de estar. Avós, tias e primas que sempre lutaram contra a obesidade, mas em absolutamente todos os cafés, almoços e jantares da minha infância e adolescência, a obsessão por classificar o corpo gordo como feio, repulsivo e algo a ser curado era sempre o assunto principal. A queixa não era porque não se encontrava roupas bonitas do tamanho GG ou o julgamento implícito que o corpo gordo carrega na sociedade: era sempre reforçando o quão feio é ser gorda, o quanto éramos erradas e que não estávamos nos esforçando o suficiente. Ver as pessoas falarem mal de comida (porque engorda) me dá asco até hoje: como posso comer e ao mesmo tempo amaldiçoar aquilo que me nutre, em um ciclo de culpa tão nefasto?

Aos 30 anos passei por um momento super conturbado em minha vida. Nesse processo, emagreci bastante. Engraçado é que ao invés de dar saltos de alegria, eu me choquei várias e várias vezes com comentários das pessoas que SEMPRE comentavam o quanto eu estava muito mais bonita porque havia emagrecido. O que eu ouvia não era o elogio do meu “novo” corpo, mas a implícita crítica ao que eu era antes. Como se agora eu estivesse entrando definitivamente para um lugar melhor, como se finalmente eu estivesse correta. Não nego o prazer que foi vestir M pela primeira vez, ou usar bermudas, me sentir desejada e bonita. Mas isso tudo me pareceu e me parece sempre estranho.

Acho que foi por isso que escrevi “pneuzinho” no corpo da Bruna. Não temos medo de pessoas gordas: temos medo de sermos as pessoas gordas. É fácil escrever “linda” na barriga da Bruna, porque ela é efetivamente linda. Mas eu escreveria linda na minha coxa cheia de celulite e flácida quando me olho no espelho? Esse medo, que é intimo e individual, inaugura todos os preconceitos que formatam a visão do corpo gordo na sociedade atual. Afrontar as palavras feias é infinitamente mais catártico porque ilumina o “elefante da sala” e faz falar sobre aquilo que realmente precisa ser falado. Se o corpo gordo realmente fosse vivenciado como algo bonito, qual seria a preocupação de engordar?

Os corpos de Bruna e Uila não contam uma história de superação. Eles funcionam como um espelho doloroso. A coragem delas não é mostrar as dobrinhas e curvas sem roupas, e balançar as gorduras na frente dos outros em uma pretensa libertação: se fosse só isso seria freak show. A coragem delas é chamar para o diálogo, perguntando silenciosamente “meu corpo te incomoda?”.  E eu, como espectadora, devolvo a pergunta mais importante: “meu corpo me incomoda?”. O escritor norte-americano Henry Miller, ao discorrer sobre a função do artista escreve: “um verdadeiro artista joga o leitor de volta para si mesmo, ajuda-o a descobrir em si mesmo os inesgotáveis recursos que são seus”. A performance de Bruna, Uila e Gaia é potente porque, permanecendo em silêncio e sem qualquer pretensa ideia de superação, não me ensina somente algo sobre elas: me impele a aprender algo sobre mim mesma.




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
Veja a coluna da Barbara Bíscaro