Ilustração: Luisa Alexandre

Coluna da Antonilde Rosa

Toca Que Nem Homem!

Postado em 04/12/2017, 14:13

Um intenso debate nas redes sociais movimentou o meio da música nas últimas semanas. Após o show de “Hermeto Pascoal e Big Band”, que aconteceu em 28 de outubro, no Circo Voador, no Rio de Janeiro, muito se falou sobre a ausência de mulheres num palco com quase 30 músicos, incluindo convidados. Enfrentar o machismo na música é uma luta cotidiana e por isso nós, mulheres musicistas, decidimos romper o silêncio.

Ao longo das discussões, observamos diversas violências de gênero sendo reproduzidas em postagens e comentários. Xingamentos, comparações com movimentos nazistas e fascistas, e diversas outras desqualificações foram feitas contra mulheres que debatiam a questão. Falsas polêmicas desviaram o foco do debate principal, afinal a importância do Hermeto na história da música não foi em nenhum momento questionada.

A ausência de mulheres no ambiente musical era algo naturalizado, seja pelo público, ou mesmo pelas musicistas. Acontece que na atual conjuntura o debate acerca do machismo estrutural está posto, e uma reação foi inevitável. Relembrando Malcom X, é necessário “não confundir a reação do oprimido com a violência do opressor”.

Nos últimos anos, houve um avanço importante do movimento feminista na América Latina e em diversos países. No Brasil, o levante feminista, também intitulado “Primavera das Mulheres”, ganhou corpo e diversas frentes foram articuladas: ações de rua; campanhas virtuais como as hashtags #PrimeiroAssédio, #MeuAmigoSecreto e #AgoraÉQueSãoElas; o surgimento expressivo de novas organizações feministas, exclusivas de mulheres, de caráter amplo e também identitário (mulheres negras, mães, lésbicas, trans); debates sobre o machismo estrutural e a invisibilidade da mulher em diversas áreas do conhecimento, seja na universidade, em manifestações da cultura popular, na política e no trabalho doméstico.

Na música, percebemos o impacto dessa onda através de produções como: a hashtag #MulheresCriando que culminou na rede Sonora; a Coletiva Primavera das Mulheres; o Coletivo Essa Mulher; Meninas do Brasil; Blocos de Carnaval que cantam a representatividade da mulher; funkeiras que compõem sobre o empoderamento feminino; mulheres do rap que vêm rompendo as barreiras do machismo e do racismo dentre muitas outras. Na academia, estudos sobre a desigualdade de gênero vêm sendo desenvolvidos no campo da música. A pesquisadora e cantora Antonilde Rosa Pires identificou e discutiu os altos níveis de ansiedade e estresse na atuação de cantoras nos contextos de Universidades Federais. Já o trabalho de Susan McClary demonstra que os sentidos que empregamos sobre os gêneros feminino e masculino foram construídos e disseminados profundamente através de narrativas musicais e literárias. Perpetuando tais estigmas, percebemos em contextos musicais o uso frequente de adjetivos e expressões como “violão-macho”, “João Gilberto de saias” e “toca que nem homem”, como formas de elogio ou estímulo ao fazer musical da mulher.

Nesse sentido, reafirmamos a importância de visibilizar essa estrutura opressora. Cabe aqui refletirmos: O que faz com que uma Big Band de 30 músicos não tenha nenhuma mulher? Quais os critérios utilizados para a arregimentação de grupos musicais? Como são as formações nas escolas de música e fora delas? Precisamos fazer essas e muitas outras perguntas, para compreender, debater, desconstruir e para mudar. Ninguém vai nos calar! O ideal meritocrático é falácia e seguimos, no século 21, vivendo em um mundo extremamente desigual, machista e racista. Todo avanço é disputa. Se as brechas se ampliaram, se deve aos movimentos feministas que lutaram e lutam incansavelmente em defesa de nossos direitos. As ações de busca por uma sociedade mais justa precisam ser pautadas, elas não estão dadas. É preciso se levantar, abrir a porta e arrombar se necessário. Que mais mulheres ousem e gritem publicamente quando se sentirem agredidas, violentadas e não representadas. Mayara Amaral, presente!

Assinam: Aline Gonçalves Antonilde Rosa Karin Verthein Marcela Velon Maria Clara Valle Maria Souto Monica Avila Tânia Rêgo Apoiam: Alice Passos Aline Castro Ana Guimarães Ana Paula Cruz Andrea Ernest Dias Bebel Nicioli Carla Rincón Cláudia Ramos Cristina Bhering Débora Nascimento Denise Rodrigues Diana Cavaquinho Doralyce Flávia Souza Gaia Petrelli Wilmer Gretel Paganini Ilessi Isadora Scheer Johanna Weglinski Julia Mendes Selles Kalu Coelho Laura Castro Leticia Malvares Lise Bastos Luana Dias Luciana Requião Luisa Toller Luiza Brina Mageca C. Gomes Maiara Moraes Manoela Marinho Marina Chuva Mayte Corrêa Milena Sá Valeria Gomes




Antonilde é cantora, formanda em Bacharelado em Canto Lírico pela UFG. Ativista dos Feminismos negro,é integrante da Rede Sonora - música(s) e feminismo(s), do Atlânticas- Coletivo de Mulheres Negras da UFG e também do Coletivo Rosa Parks – que desenvolve Estudos e Pesquisas sobre Raça, Etnia, Gênero, Sexualidade e Interseccionalidades.
Veja a coluna da Antonilde Rosa