…e as margens opressoras serão exterminadas

Coluna da Silvana Leal

Homem dela mesma

Postado em 23/08/2017, 11:06

Caras leitoras e leitores

Venho por meio desta coluna que vou batizar de invertebral, expor meus pensamentos enquanto mulher-artista-ativista que nunca pretendeu-se feminista, unicamente pensadora do mundo pertencente às mulheres.  Proponho portanto,  neste espaço trazer para vocês temas da condição feminina que sempre me inquietaram e que ao longo dos meus vinte e poucos anos de carreira como artista, foram motivo e fonte de inspiração, e que agora passarei a compartilhar com vocês, através de textos, imagens, poemas, áudios. Espero que ao “narrar” um pouco desta trajetória pessoal, por meio de trechos da minha obra eu possa contribuir e ampliar com este incrível espaço de discussão criado pelo Catarinas.  Eu catarina que sou fico honrada de poder participar e fazer parte deste time inquietante de mulheres em busca de perguntas e respostas que venham a nos colocar em uma outra plataforma existencial, repensando nossa condição humana enquanto fazedoras e construtoras de nossa própria história.

Pois bem, em 1994 eu estava de férias em Caraíva, na Bahia, acabara de me formado em psicologia, em Brasília, e terminado meu estágio no Instituto de Saúde Mental da Granja do Riacho Fundo.  Neste momento eu já me encontrava completamente mergulhada na literatura, principalmente na feminina, lendo muitas mulheres escritoras como Clarice Lispector, Annais Ninn, Simone de Beauvoir, Virginia Wooff entre outras, quando de repente, a beira mar, uma lucidez e uma embriaguez poética me tomam e de sobressalto surge o poema “Homem dela Mesma”. Este poema que veio como um grande jorro quente leitoso e intenso seria o que hoje considero a primeira resposta  a algumas perguntas sobre: como alcançar o status humano sendo uma mulher em um mundo dominado por homens? Como ter o direito a liberdade do meu próprio corpo e dele fazer o que julgar ser o melhor, sem que eu seja  violentada a todo momento pelo mundo machista e desigual?

Deste poema-resposta e outras tantas perguntas, surgiria então meu primeiro livro “Erotismo Proibido nos Lábios” em palavras e imagens. Pois ao escrever tal poema percebi de imediato que não era um poema isolado era o início de um estudo que decifraria o enigma de uma teoria poética que pouco a pouco foi se delineando com o passar dos anos e na medida, em que eu avançava em meus estudos literários e filosóficos sobre a condição feminina e principalmente sobre a sexualidade, tema principal do livro, surge então “A Teoria Erótica do Toque”,  que vim a propor na Introdução do livro, e que  irei explicitar na próxima edição desta coluna. Neste primeiro contato deixo com vocês em palavras e imagem “Homem dela Mesma”. E fico por aqui, aguardo sugestões de pautas, dúvidas, trocas afetivas e intelectuais, compartilhamentos e por ai vamos juntas construindo esta coluna invertebral, sem rigidez, leve, porém corajosa e intensa. Abraço a todas e todos.

Homem dela Mesma

Um outro Ser

                       – Inessencial –

Ah, Adão! E, se tuas costelas

Estivessem quebradas?

Certamente a história não

Tivera continuado estupidamente

Nas mãos dos senhores da criação

 

O vocabulário esqueceu de singularizar

– A ele – Homens são homens

E mulheres: são homens?

Todas cortesãs à espera de seus príncipes

E todos vestem suas máscaras de alegria

Submersos em contemplação

Palpitam sexos maquinalmente

 

Mugidos de uma multidão farta e faminta

Nobres instintos arrastam milênios de escravidão

Agora sabemos:

A natureza mudou o percurso de seus rios

E as margens opressoras serão exterminadas

Em cada singularidade que se fizer Ser

 

Quando o para-si ecoar

Nos próprios umbigos

Deixarão de ser estrangeiras de si mesmas

Perderão seus sexos, e no lugar

Depositarão pássaros avermelhados

 




Silvana Leal é artista multimeios, desde o início de sua carreira trabalha com a fotografia, a literatura e principalmente a performance como suporte básico de seu trabalho. Publicou os livros “Erotismo Proibido nos Lábios” em palavras e imagens (2001), Todo corpo (2007) pela Travessa dos Editores, Palavra Açúcar (2012) pela Papaterra editora, e o Catálogo O que há de vir? (2012). É diretora do espaço Ateliê Casa das Ideias, em Florianópolis, na qual coordena projetos culturais, desenvolve trabalhos de criação e curadoria para artistas.
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