Foto: Chris Mayer

Coluna da Chris Mayer

Cada aniversário uma vitória: a arte resiste no sul da ilha

Postado em 29/09/2017, 18:41

É com muita alegria que minha segunda coluna (ufa, trabalheira boa) vai dedicada a um espaço cultural que fez quatro anos de existência/resistência, e que está nitidamente amadurecendo: o Circo da Dona Bilica. Lá comecei minha aventura de fotografar palcos, palhaços, e aprendi a rir solta na plateia. Único teatro de lona permanente no sul da ilha (Morro das Pedras), o Circo da Dona Bilica tem espetáculos semanais, e no verão, todos os dias. Sua principal atividade é a palhaçaria, mas também tem shows de música, magia, dança, malabarismo, acrobacias aéreas. Com uma infraestrutura de boa qualidade, o que mais gosto é o palco na altura das primeiras cadeiras, criando uma relação mais direta com o espectador. Eventos, espetáculos, muitas oficinas de arte – já teve até aulas de tango. No mesmo espaço funciona o Restaurante Don Pepe, com comida mediterrânea e o meu xodó: a Escola de Palhaços, primeira no sul do Brasil.

O Circo da Dona Bilica é um empreendimento da companhia Pé de Vento Teatro. Tem como anfitriões nossa querida Dona Bilica, “manezinha” interpretada pela atriz Vanderleia Will, a Vandeca, e seu marido, o palhaço Pepe Nuñez. Em entrevista à jornalista Paula Guimarães, Vandeca fala sobre a filosofia do espaço e a trajetória de fortalecimento do movimento artístico nesses quatro anos. As fotos! Ah, essas são minhas.

Portal Catarinas – Como está sendo comemorar quatro anos do circo?
Vanderleia Will – Este ano particularmente está sendo muito especial. Os quatro dias comemorativos foram intensos, com direito a bolo de aniversário, abertura de exposição, brindes, espetáculos, e até atração internacional. Comemoramos com todo nosso público, alunos, clientes do restaurante, espectadores, artistas, parceiros e apoiadores. E a grande estrela do evento foi ter feito ao chapéu, o que atraiu muitos e novos espectadores.

Portal Catarinas – O que motivou a criação desse espaço?
Vanderleia – O espaço era um sonho do Pepe. Ao nos encontrarmos com uma carreira de pesquisa na arte do palhaço, com repertório de espetáculos, oficinas, realizando o Festival de Palhaços Ri Catarina, e com uma lona de circo, não vimos porque não construir um espaço. Condensar tudo em um só local, onde poderíamos receber amigos, criar, ensaiar, dar aulas, estar em temporada. É o sonho de toda a companhia de teatro.

Portal CatarinasQuais os melhores momentos desse tempo? Que espetáculos marcaram a trajetória?
Vanderleia – O espaço diariamente nos surpreende, recebemos muitas pessoas, artistas, cias de teatro, circo, dança e músicos. Os momentos sempre são especiais quando temos o tempo da troca com os amigos na arte. Quando podemos intercambiar experiências, receber uma oficina, apresentar juntos em um cabaré e tomar aquela cervejinha no final do trabalho. Recebemos muitas pessoas queridas, muitas marcaram, afinal programamos todos os finais de semana, desde que abrimos há quatro anos, sem dizer os eventos que sediamos, como o Festival Floripa de Teatro, o Sonora da Ilha, o Palco Giratório do SESC e o Ri Catarina. Os espetáculos que mais marcaram… São tantos que levaria horas citando, mas destaco Julio Adrião, com A Descoberta das Américas, Teatro de Anônimo, Marta Carbayo/Dinamarca com Canta Clown, Palhaço Tomate/Argentina, a cantora Ana Paula da Silva/Joinville, Os Irmãos Sabatino/SP, Gardi Hutter/Suíça, Lume Teatro/SP, Esio Magalhães/SP, Hilary Chaplin/EUA, Anna de Lirium/Áustria, muitas cias de circo e teatro do Estado de SC.

Portal CatarinasQue elos o circo estabeleceu e como desenvolve sua relação com a comunidade e entorno?
Vanderleia – As escolas do bairro e região são beneficiadas com os projetos que desenvolvemos. Sempre fazemos contato e divulgamos nossas atividades. Mantemos um bom relacionamento com os vizinhos e o comércio do bairro, que sempre nos apoia quando possível. Locamos o espaço para eventos diversos, como festas de final de ano de escolas, confraternização de empresas, o que nos aproxima da comunidade.

Portal CatarinasQue atividades o circo oferece e de que forma financia seus projetos?
Vanderleia – Realizamos mensalmente apresentações gratuitas para escolas públicas, onde todas as escolas e creches do sul da ilha são beneficiadas. No momento o projeto tem o apoio do FAÇO CULTURA (www.facocultura.com.br). Aprovamos um projeto via lei do Fundo da Infância e Juventude, mas o valor aprovado ainda não foi repassado. E a última notícia foi a aprovação do projeto RI CATARINA. Assim que o dinheiro for repassado, queremos executá-lo, ainda este ano. Ministramos aulas de acrobacias aéreas, e beneficiamos 40 alunos de diversas faixas etárias.

Portal CatarinasComo o circo estabelece suas conexões com artistas e desenvolve o circuito cultural e artístico?
Vanderleia – Somos uma economia criativa, abertos a propostas e ideias de gestão do espaço. Criamos uma escola viva, a Escola de Palhaços do Circo da Dona Bilica, onde pessoas interessadas na arte da palhaçaria aprendem conosco a magia desta genuína arte, que é ser palhaço. Com a escola, os alunos podem se tornar residentes, e além de dirigi-los na criação de seus números e espetáculos, eles se apresentam e nos ajudam na manutenção e funcionamento do espaço. Os diversos artistas que vem para nosso espaço são parceiros e aprovam a troca de se apresentar pela bilheteria. Não temos cachês, pois tampouco temos apoio e patrocínios. O que faz do próprio artista e o público os apoiadores do espaço. A programação não é preparada com tanta antecedência. Nestes quatros anos, praticamente todos os artistas locais que se identificam e gostam de nossa filosofia já se apresentaram em nosso palco. A maioria dos artistas de outras cidades e estados, ou até mesmo internacionais, que estão em circuito pelo sul do país, ou de passagem pela ilha, aproveitam e se apresentam no Circo, praticamente bancando todos seus custos. Nós oferecemos hospedagem e alimentação.

 

  

Portal Catarinas Dona Bilica caracteriza a cultura local. Ela é representativa do espírito do circo?
Vanderleia – A Dona Bilica é uma personagem que representa a cultura local. Mas como ela foi construída, e como eu trabalho a comicidade nela e sua relação com o meio, o público, faz dela uma boa representante do espírito circense. Ela assume o papel de anfitriã e rompe a regra da necessidade de um messieur no circo, ou que para ser um manezinho tem que micar e contar piadas machistas. Bilica é controversa, ela é erudita e transgressora também. No circo de variedades, o que sempre impressiona e atrai o público para as lonas é o inusitado, o diferente. Achamos que essa mistura, Manezinha x Circo, dá um bom caldo.

Portal Catarinas – O que tem sido mais desafiador nesse período?
Vanderleia – O maior desafio é ter público.

 

Portal CatarinasE o que fez o Circo da Dona Bilica chegar até aqui?
Vanderleia – Amor, dedicação, persistência e resistência.

Portal Catarinas – Qual o sentimento da Dona Bilica nesse aniversário?
Vanderleia – Da Dona Bilica??? Olha nega, ela disse para mim, que deu graças a deus que o bolo era grande, porque foi uma carrada de gente pra a festa, e todo mundo saiu com uma fatia de bolinho.

Portal CatarinasPor que o circo parou de cobrar ingresso?
Vanderleia – Nos dias que comemoramos o aniversário decidimos fazer a entrada ao chapéu, para experimentar. A experiência foi bem positiva, e consideravelmente recebemos mais público. É uma alternativa de proximidade com o público e formação de plateia. De pensarmos o valor da arte e o quanto ela esta acessível ao seu bolso. Estamos propensos a repetir em outubro e assim respirarmos novas experiências de gestão e resistência do espaço.

 

Parabéns, Vandeca e Pepe, toda a equipe, residentes e ex residentes, todos os alunos da Escola de Palhaços, e tantos que fizeram parte dessa história intensa com artistas fantásticos.

Que venham mais circos e espaços culturais com a mesma paixão para nossa Florianópolis, né, Dona Bilica?

 




Chris Mayer é fotógrafa e jornalista, dedica-se à fotografia de palco, fotojornalismo, retratos, fusões com forte trabalho autoral. Busca a conexão em suas imagens e textos. Tinha um laboratório P&B na área de serviço. Lecionou fotografia nas faculdades de jornalismo, publicidade, artes visuais e arquitetura. Fotografou dissertações e editou um livro de fotopoemas.
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