Foto: arquivo pessoal

Coluna da Barbara Bíscaro

A faxina

Postado em 21/08/2017, 12:39

Nunca tive empregada na minha vida adulta. Desde que saí de casa, aos dezenove anos, sempre limpei minha casa (e falo isso sem qualquer julgamento a quem precisa de ajuda nos afazeres domésticos). Solteira ou casada, sem filhxs, mesmo nos momentos mais malucos de trabalho eu sempre faxinei minha casa. Nesses anos todos, tentei desenvolver um aprimoramento da arte de limpar, mas recentemente descobri que atribuo um sentido mais metafísico à faxina, inevitavelmente me concentrando mais ao sentido da vida do que ao tipo melhor de produto para cada superfície a ser limpa. Isso nem sempre é bom. Mas é o que eu posso.

Limpar é uma dessas ações catárticas da existência, esse prazer quase maníaco de retirar aquilo que está sobrando, maculando, interferindo na boa fluência das coisas. Não sou virginiana, porém encontro no ato de limpar coisas externas uma espécie de limpeza interna. Muitas pessoas se identificarão com isso, eu acho. Organizar o mundo de fora para organizar o mundo de dentro. Limpeza em sua acepção mais terapêutica, mais catártica. Claro, nem toda faxina aqui em casa é catártica…mas algumas são. Esses dias eu estava ajoelhada no chão esfregando uma sujeira que parecia imemorial atrás do fogão. Primeiro, indignada com ter passado tanto tempo sem limpar esse canto esquecido da casa. Segundo, fazendo paralelos entre o ato de olhar bem de perto para o chão e olhar bem de perto para aqueles cantos da alma em que passamos anos sem consultar e que viram uma verdadeira bagunça. Terceiro, claro, uma vontade inexplicável de chorar; depois o desejo de poder passar a esponja (com o lado verdinho, claro) na alma, esfregar todos os cantinhos possíveis e deixar a água escorrer depois, vendo tudo escoar pelo ralo. Mais barato que terapia, aposto.

Ainda bem, fui interrompida pela campainha. Era o síndico, um senhor bacana que volta e meia vem dar uns avisos. Abro a porta com a roupa estranha (a roupa de fazer faxina, claro), olho vermelho de quase choro e tento parecer normal. Lembro de perguntar como é que faço para arrumar a torneira que estava pingando, a luz da cozinha que estava piscando, a descarga do banheiro que andava disparando. Tive certeza de que por trás do olhar benevolente me explicando sobre vedadores de torneira estava um “falta um homem na vida dessa mulher”. Quando percebi isso achei cruel. Com os homens.

Quando nossos papéis de gênero são reduzidos aos serviços que prestamos à sociedade fica sempre uma sensação de uso dx outrx. A mulher limpa a casa. O homem conserta o chuveiro e troca as lâmpadas. Nada disso faz mais sentido hoje. O que me impressiona é constatar que o machismo atribuiu às mulheres os serviços ligados ao cuidado do outro: limpar, alimentar, acalentar. Cuidados que são estressantes e são trabalhos (muito pesados, diga-se de passagem); mas são preenchidos muitas vezes pela capacidade de desenvolver afetividade e amorosidade em relação às pessoas e aos ambientes ao redor. Não que trocar o chuveiro não possa ser um ato de amor. Mas me dei conta que eu poderia pagar para alguém trocar o chuveiro de casa e isso seria normal. Mas nem todo o dinheiro do mundo pode pagar carinho e cuidado. Também posso pagar alguém para limpar minha casa. Mas não compro amor e companheirismo: esses valores possuem outro câmbio, outra cotação na roda da vida. Quando as mulheres ganharam o direito de prover o próprio sustento (não se engane, isso já foi visto como um problema para a nossa sociedade), a primeira coisa que fizeram, na maior parte das vezes, foi fugir imediatamente de relações abusivas e corrosivas da qual eram dependentes exclusivamente financeiras – sem laços de amor ou companheirismo.

O sistema patriarcal estabeleceu, disfarçado do nome de amor ou de reconhecimento, uma lógica de usufruto dos corpos e do trabalho das pessoas. Todas as pessoas, em seus diferentes papeis de gênero que carregam. Mais uma vez repito, acho que pareço uma vitrola quebrada: o machismo destrói a todxs, mulheres e homens. A diferença é que as mulheres morrem, todos os dias em nosso país, por crimes de feminicídio – são violentadas, abusadas, descartadas, esquecidas, caladas. Os homens sobrevivem (não os jovens, negros e de periferia, mas esse assunto é para outro capítulo). Porém muitos dos homens envelhecem e vivem vidas solitárias (mesmo rodeados de gente), impossibilitados de fazer conexões de amor e amizade, tão envenenados de solidão e vazio que coisas como o álcool, o poder e o dinheiro se tornam uma tábua de salvação: basta ver todos os políticos brasileiros e simplesmente perceber o quão doentes essas pessoas se encontram, o quão incapazes eles são de olhar para a vida humana e sentir qualquer empatia pelx outrx. Nesse sentido, me desculpem: não passarão xs machistas, por mais que eu entenda a origem do vazio de suas vidas tacanhas. Quero as mulheres vivas. Quero uma lógica de cuidado e empatia regendo o mundo. Pelo que estamos vivendo, a revolução vai ser feminina – e nisso, inevitavelmente feminista.

O ato ou o desejo de cuidar dx outrx não é intrínseco à mulher. Não está inserido em sua biologia, impregnado em seus ovários e útero. É uma construção social. Por isso criar homens que sintam a mesma responsabilidade e desejo de cuidar de outros seres humanos é uma tarefa desse nosso mundo. Atos de cuidado chamam atos de cuidado, fala lindamente uma educadora italiana no documentário “O começo da vida” (disponível no Netflix, aliás).  Limpo minha casa como um ato de amor e cura de mim mesma, assim como tenho certeza que minha mãe o fazia por nós quando éramos crianças. Porém a diferença é que no tempo de minha mãe, ela fazia jornada tripla e seu trabalho pouco reconhecido e nada remunerado das tarefas domésticas era implícito como uma ação inerente ao “ser mulher”. Também sei que se eu tivesse filhxs, cachorro, casa com jardim, trabalhando e correndo no cotidiano insano, não hesitaria em contratar alguém que pudesse dar contas das tarefas domésticas ao invés de ficar viajando na metafísica da faxina. Mas no meu aprendizado infantil de manter a casa limpa eu aprendi o cuidado com meu espaço, com meu corpo, com minha alma – aprendizado esse que não deveria ter endereço de gênero.

Os cantinhos do teto, os azulejos da área de serviço, aquele maleiro do armário. Nem tanto o céu, nem tanto a terra, na vida cotidiana (e na busca da alma) nem sempre damos conta de tudo. Não se trata de tentar ser a super-mulher: bem sucedida na carreira, ótima faxineira e amante sensual. É claramente o contrário. É poder gostar de faxina ou astrofísica molecular, independente de seu gênero ou ativismo político. É ser aquilo que se pode ser. E só.

 

 

 

 

 

 

 

 




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
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