Campanha do Coletivo Casa da Mãe Joana estará em exposição no COLMEIA Coletivo de Artes, no próximo final de semana / FOTO: Divulgação

Coletivo cria campanha para garantir debate de gênero em Blumenau

Postado em 23/09/2016, 23:37

No ano passado, a Câmara Municipal de Blumenau vetou os termos “identidade de gênero”, “ideologia de gênero” e “orientação de gênero” nos currículos, diretrizes e materiais escolares, excluindo o debate do Plano Municipal de Ensino. O plano tem dez anos de validade, mas o Coletivo Feminista Casa da Mãe Joana garante: vai ter discussão de gênero com ou sem a aprovação dos vereadores e do prefeito. Para isso, lançou a campanha “Vamos falar sobre gênero, sim”, em que explica os prejuízos da supressão do tema sob diversos aspectos, furando a tentativa de invisibilizar as mulheres no PME. A campanha tem textos e fotos produzidos pelo próprio coletivo e estará em exposição nos dias 24 e 25 de setembro no COLMEIA Coletivo de Artes, evento anual que acontece no Teatro Carlos Gomes.

“Entendemos que a cultura do estupro e a violência contra a mulher são também reflexos da educação machista promovida por um sistema escolar que ainda defende os papéis sexuais como naturais. Daí surgiu a ideia de realizarmos uma série fotográfica que chamasse a atenção para o fato de que o PME blumenauense não se absteve da discussão nacional de gênero nas escolas: ele vetou”, afirma Luziana Roesener Cecconi, integrante do coletivo.  bnu_genero1

As fotos foram produzidas durante a comemoração do terceiro aniversário do coletivo no mês de julho. “Organizamos o mural com imagem de todos os vereadores que votaram contra a educação de gênero nas escolas e as pessoas que participaram do evento bateram fotos em frente ao mural”, conta Luziana. O fotógrafo é Gustavo Simão, companheiro de uma das integrantes do coletivo.

As mulheres foram as últimas a ingressar nas escolas, a votar e a ter acesso ao mercado de trabalho. Ainda assim, quando começaram a frequentar as escolas a partir do século XIX no ensino particular e em 1880 na rede pública, o conteúdo era voltado para os afazeres domésticos e para os compromissos do papel de mãe e esposa. Havia a possibilidade da formação no magistério – desde que cumprissem com os requisitos de docilidade e castidade exigidos das professoras na época. Mesmo hoje, quando começa a romper os limites dos trabalhos ditos “para mulheres”, elas recebem menos que os homens, na maioria das vezes. As primeiras votantes precisavam da autorização do marido. Mulheres solteiras não eram eleitoras. Hoje, todas votamos, mas muito poucas participam do processo eleitoral e menos ainda são eleitas.

O atraso do acesso das mulheres aos espaços públicos tem tudo a ver com a falta de debate sobre as questões de gênero nas escolas. É esta a relação que o coletivo Casa da Mãe Joana procurou mostrar com a campanha, publicada em seis partes na sua página do Facebook. Em um sistema de ensino que ignora personagens históricos e a produção feminina no campo científico, vetar o debate das questões de gênero na escola é mais uma medida que corrobora com a invisibilidade das mulheres, acreditam as feministas. “Os fatos históricos são repassados de forma enviesada, a ignorar dados que não seriam convenientes para o paradigma atual, ajudam a sustentá-lo. Ao falarmos sobre os feitos das mulheres e quebrarmos a noção de que mulheres podem ou sabem menos intelectual ou fisicamente que os homens, estamos caminhando em direção oposta ao sistema patriarcal”, explica a campanha.bnu_genero2

Segundo o coletivo, a falta de espaço para discussões sobre as temáticas de gênero nas escolas é um dos fatores que reforçam o bullyng e, como consequência, a evasão escolar de alunxs trans, gays, lésbicas e bissexuais. “Quando escolhemos não falar sobre diversidade, também escolhemos fechar os olhos e os ouvidos para um leque de violências que tais estudantes sofrem na instituição escolar sem amparo nem da coordenação, nem da família, nem dos colegas de classe”, diz a campanha.

A lacuna no debate sobre as questões de gênero na escola também retroalimenta a falta de representatividade e subparticipação política das meninas. “Desde cedo meninas são desencorajadas a agir de forma militante e politizada, tendo que ‘aceitar’ o papel imposto a elas”, alerta o coletivo, observando que a própria câmara municipal de Blumenau não tem sequer uma vereadora atualmente e teve apenas quatro ao longo da sua história.