“Quem disse que vivenciar um trabalho profundo seria simples?”/Foto: Chris Mayer

“Canto por todas nós na fogueira”: Ana Paula da Silva é uma das compositoras do Sonora Floripa SC

Postado em 13/10/2016, 7:55

“Canto para minha menina, minha mulher, minha anciã. Canto por todas nós na fogueira. Mães corajosas lavando trouxas nas cachoeiras com água em nossa cabeça para alimentar a aldeia”, declama Ana Paula da Silva em sua obra “Senhora do Ouro”, parte do álbum Raiz Forte, lançado em junho. Vencedora do Prêmio da Música Catarinense, em 2015, na categoria Melhor Cantora, Ana Paula é umas das 33 mulheres que se apresentam no palco do Teatro Pedro Ivo, em Florianópolis, nos dias 18 e 19 deste mês, no Sonora Ciclo Internacional de Compositoras. O evento, que surgiu a partir de uma mobilização nas redes sociais para dar visibilidade às mulheres que criam, conta ainda com fóruns temáticos sobre a representatividade feminina na cena musical, em 20 e 21, às 17h, no Museu da Escola Catarinense (Mesc) e mostra audiovisual, em 22, a partir das 13h, na Fundação Cultural Badesc. O ciclo integra 26 cidades de seis países. Com uma programação totalmente gratuita, Santa Catarina é o estado que vai levar mais mulheres ao palco.

Natural de Joinville, Ana Paula, que é compositora, intérprete, instrumentista e produtora de sua obra e de outros projetos culturais, já lançou seis álbuns, um songbook e realizou shows e turnês no Brasil e exterior. São vinte anos de carreira. O que vem pela frente? “Criação, produção e trabalho diário. Eu sou uma pessoa de pequenos sonhos e para realiza-los sigo o processo de uma operária da arte”, afirma a artista. Em entrevista ao Catarinas, Ana Paula fala sobre suas expectativas em relação ao potencial da mostra para a valorização das compositoras catarinenses.

Acesse a programação completa do evento! 

Catarinas: O que você espera do Sonora Ciclo Internacional de Compositoras? Que tipos de ações e reflexões a mostra pode suscitar?
Ana Paula:
Observo que dentro do cenário musical, encontramos uma lacuna grande na divulgação e movimentos artísticos em que reverencie este foco, novos compositores, novas músicas, novos artistas, vivemos em uma geração desconhecida para o grande público. Tratando-se de mulheres compositoras, instrumentistas ainda mais. Mas o propósito, acredito eu,  é conhecer o que se produz em cada estado, então, o Sonora só vem a valorizar, divulgar este movimento, abrir as portas para o público catarinense, e trazer a importância de conhecer e apreciar o que vem em relação à arte autoral produzida no nosso estado.

O evento irá resultar em um apanhado geral da obra feminina e irá de fato trazer a tona questões de valorização artística, intelectual e regional, fortalecendo nossa cultura catarinense que só vem crescendo cada vez mais. Isso irá reverberar em pontes para novos projetos e novas criações.

Catarinas: Como você vê a realização de uma mostra dedicada a visibilizar o trabalho de compositoras brasileiras e mais especialmente, de catarinenses?
Ana Paula da Silva: 
Muito importante este encontro, este trabalho é de pesquisa musical regional, que poderá se unir com outros artistas de outros estados do nosso país e isso só fortalecerá a arte musical brasileira.

Catarinas: O ciclo surgiu de uma mobilização de artistas diante da não indicação de compositoras mulheres em uma mostra. Em sua opinião, há diferença na valorização de músicas criadas por homens e por mulheres? As mulheres têm mais dificuldades em dar visibilidade a seus trabalhos?
Ana Paula da Silva:
Dada a reflexão, vejo sinceramente um adormecer no caminho ao qual se refere a compositora instrumentista, por exemplo. No Brasil, temos com visibilidade somente pouquíssimas. Agora, só posso falar do que vivencio e experimento, dentro do meu trabalho, por exemplo, desde que iniciei a enviar composições para mostras e festivais,  por eu ser mulher, isso não foi um problema.

Para mim, as pessoas têm dificuldade em trabalhar diariamente para que sua obra ultrapasse o próprio jardim. O que acontece é que talvez muitos se perderam no tal ilusório glamour. Esperando que algo muito incrível aconteça. E isso não existe. O que existe é trabalho diário para poder levar a arte para o povo. Fácil não é, mas quem disse que vivenciar um trabalho profundo com verdade e com a única intenção de tocar, transformar e trocar,  seria simples.

Catarinas: É possível viver de música em Santa Catarina? Nesse cenário, há peculiaridades em ser mulher?
Ana Paula da Silva: Sim. É possível viver em qualquer lugar e fazer música. Porque arte não é produzida para um lugar somente. O ser é quem importa, o que ele tem a dizer com sua obra, muito mais que falar, é produzir, realizar, sair da zona de conforto e na coragem enfrentar a realidade de viver de algo puro e transformador para quem recebe e para quem faz.

Conheça o álbum completo:

Catarinas: Você tem acompanhado a produção musical em Santa Catarina? Quais compositoras você destacaria e o que elas trazem para a cena?
Ana Paula da Silva: 
Não tanto. Observo que a cena instrumental está bem bonita e fértil. Sobre as compositoras, conheci um pouco o trabalho da Marissol Mwaba que é forte com sensibilidade e qualidade musical entre outras artistas como a Tatiana Cobbett, que se expressa muito bem e realiza. Estou muito contente em poder participar do sonora assim terei esta oportunidade de conhecer mais o que vem sendo feito no estado.

Ana Paula ao lado de Jimi Santos, Tatiana Cobbett e Marcoliva/Foto: Chris Mayer

Ana Paula ao lado de Jimi Santos, Tatiana Cobbett e Marcoliva no lançamento do álbum Raiz Forte, no TAC/Foto: Chris Mayer

Catarinas: Você canta a brasilidade, e mais fortemente a negritude. De onde vem a inspiração? De que forma você cria suas obras?
Ana Paula da Silva: 
Minha relação com o tambor, com a música afro-brasileira vem de minha família, de nossos ancestrais do que resultamos em um processo que vem da música indígena, africana e europeia. Intuitivamente, tentando silenciar e o desejo de imprimir algo que passeia dentro.

Catarinas: Atualmente, que artistas, mulheres ou homens, você ouve?
Ana Paula da Silva: 
Jeaninne Martin da Argentina.  Juan Quintero da Argentina. Luna Monti, Paula Santoro, Ponto Br.

Premiações:
Caixa Cultural, Prêmio Pixinguinha, Prêmio Destaque Cultural do Ano como a artista catarinense que mais fez shows fora do Brasil (2013). Prêmio Circuito Sesi (2014 e 2015), Melhor Intérprete no Festival Nacional de MPB de São José do Rio Preto/SP (2016). Dois de seus álbuns foram pré-selecionados para o prêmio da música brasileira. Participou de inúmeros programas de TV como Programa Talentos (DF), Terra Canção (PR), Music Box Brazil, Sr. Brasil (SP) e programas na Argentina e Áustria.

Foto: Chris Mayer

Ana Paula mostra seu trabalho no Sonora, na próxima terça-feira (18)/ Foto: Chris Mayer

 

 

 

 

 

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