Obra na avenida Ivo Silveiro traz a imagem da aluna da grafiteira/Foto: arquivo pessoal

As existências e as cores das periferias na arte da grafiteira Gugie

Postado em 02/02/2017, 11:11

Numa das avenidas mais movimentadas da área continental de Florianópolis, o realismo de uma personagem retratada no muro é um convite para desligar o cotidiano automatizado e refletir sobre as existências. Há uma força naquela menina mulher, que mesmo estática consegue se comunicar com os olhos. É Duda, aluna da grafiteira Monique Calvanti, 24 anos, conhecida pelo nome artístico de Gugie. “Foi incrível pra ela se ver lá, tão linda”, conta a representante da arte urbana que também promove oficinas e dá aulas.

Montagem com a fotografia da amiga Sara Duarte/Foto: arquivo pessoal

Montagem com a fotografia da amiga Sara Duarte/Foto: arquivo pessoal

Gugie tem uma técnica afetiva. Depois de fotografar amigas e amigos, utiliza a fotografia como ferramenta para suas obras. Olhando a imagem no celular, ela faz uma aplicação à mão livre. “Espero que desperte a existência. A vida não é óbvia, cada pessoa é importante para o todo. O ato do grafite, cada pensamento que a/o artista tem para criar sua letra e estilo, mostrar sua forma de ver o mundo é o modo de dizer ‘eu existo’. Essa maneira de se expressar faz com que muitas pessoas se identifiquem”, afirma.

Em Criciuma, parte da série Boneca de Porcelana/Foto: arquivo pessoal

Em Criciúma, parte da série Boneca de Porcelana/Foto: arquivo pessoal

A jovem artista já levou os retratos de resistência para Brasília – sua cidade natal, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Buenos Aires e Florianópolis, onde mora atualmente. Já se vão cinco anos de engajamento nesse movimento artístico e social chamado grafite (ou graffiti). Mais do que ter um spray em mãos, a sensação de descontentamento com a realidade é ferramenta indispensável para exercer o ofício. Como uma intervenção política, não por acaso o grafite está envolto em preconceitos e, por vezes, é silenciado como ocorreu, recentemente, em São Paulo.

“O grafite é um movimento cultural contra exclusão social. Surge como um grito das periferias. A ideia é deixar a nossa identidade, expressão e pensamento nas paredes. O movimento começou nos anos 80, ainda está em construção, nada é.”

Com a pequena Lia de três meses/Foto: arquivo pessoal

Com a pequena Lia de três meses/Foto: arquivo pessoal

Ela, que recentemente foi mãe, imprime seu feminismo nas mulheres que pinta e principalmente na atitude de ocupar as ruas, mesmo com a pequena Lia a tiracolo. “Não precisei parar por causa da Lia, ela participa de tudo e é muito parceira. Alguns amigos buscam refletir sobre várias esferas e problemáticas sociais e me dão força em relação à maternidade. Pintar com eles nunca foi um problema por ser mulher. Ocupar esse espaço já é um ato de resistência e de luta.”

Obra "Beijo" "O Beijo" no Terminal Velho, centro de Florianópolis/Foto: arquivo pessoal

Obra “O Beijo” no Terminal Velho, centro de Florianópolis/Foto: arquivo pessoal

No entanto, o medo das violências de gênero, tão comum às mulheres, traz algumas limitações.

“Não gosto de pintar à noite, tenho medo de andar na rua por ser mulher. Estou sempre acompanhada, pinto em diversos lugares e às vezes não me sinto bem em estar sozinha”, revela.

Gugie fazia dança de rua e gostava de ouvir rap quando o grafite apareceu como uma forma de expressão ainda mais política. “Fazia desenhos de arte-política e meu irmão sugeriu levá-los pra rua. Comecei a pintar em becos e tapumes de obra. Meus colegas sempre me incentivaram, aprendi muito observando e errando”, conta.

Uma de suas obras no Morro do Mocotó, em Florianópolis/Foto: arquivo pessoal

Uma de suas obras no Morro do Mocotó, em Florianópolis/Foto: arquivo pessoal

Oficinas
Quem estiver em Florianópolis e quiser ter contato com essa forma de expressão urbana pode participar da oficina “Grafite para iniciantes” com Gugie, que ocorre em dois dias de atividades. Os conteúdos são relacionados à história da cultura do grafite, do pixo e da arte urbana, responsabilidade social, estilos, material e técnica para uso do spray. Ao final, todas as/os participantes terão a oportunidade de fazer um trabalho coletivo.

As oficinas ocorrem nos dia 4 e 5 de fevereiro no The Gallery Floripa (Santa Monica), 11 e 12 no Coletivo Elza Sambaqui e 18 e 19 no Tienda de Ideias (Lagoa da Conceição) . Saiba mais no evento!

Obra "Chá de Sabedoria" no Colégio Aldo Câmara, em Florianópolis/Foto: Arquivo pessoal

Obra “Chá de Sabedoria” no Colégio Aldo Câmara, em Florianópolis/Foto: Arquivo pessoal

 

 

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