O quinteto se inspira no espírito andarilho da lenda colombiana homônima/Foto: Nube Abe

A música libertária de Francisco, el hombre

Postado em 19/01/2017, 18:02

“Que um homem não te define. Sua casa não te define. Sua carne não te define. Você é seu próprio lar”. Na música “Triste, louca ou má”, a cantora e compositora Juliana Strassacapa da banda “Francisco, el hombre” expressa sua inquietação diante dos enquadramentos sociais aos quais as mulheres estão submetidas e das formas como são classificadas quando decidem rompê-los. O clipe gravado durante a turnê #VaiPraCuba, no ano passado, em parceria com as integrantes do grupo Danza Voluminosa, teve mais de 365 mil visualizações e foi uma das produções audiovisuais do ano que mais atraíram olhares feministas. A letra, a sonoridade e a performance das dançarinas com belezas diversas daquela estabelecida como padrão são um convite ao empoderamento: quase um manifesto pelo direito de ser.

Única mulher da banda, a cantora e também percussionista entende o feminismo como uma maneira de colocar-se no mundo, portanto, indissociável de seu trabalho. No próximo sábado (21), ela estará no palco do Festival Noca de Verão, em Florianópolis, junto com o grupo em um evento gratuito. É a segunda vez na capital catarinense em menos de dois meses. Em entrevista ao Catarinas, contou mais sobre o quinteto que carrega no nome o músico viajante, personagem do livro “100 anos de solidão” do colombiano Gabriel García Márquez e na essência um movimento artístico pela integração da América Latina.

CATARINAS – O trabalho de vocês tem um posicionamento político? Trata-se de música de protesto?
Juliana Strassacapa – 
Estávamos incomodados com a sutileza das nossas mensagens no EP passado. Ainda não havíamos encontrado a forma clara que nos representasse. Amadurecemos na estrada e o resultado é esse primeiro álbum “SoltasBruxa”. Nesse momento que vivemos, não tem como a gente não denotar exatamente o tempo e não falar das coisas que nos incomodam. Temos que dizer, é necessário. A arte é um dos melhores veículos para isso. Nos utilizamos da música como veículo de comunicação. Por todos os ideais de unir a América Latina e Brasil, por tudo que cada um carrega consigo e em coletivo, não faria sentido pensar somente em canções bonitas. Uma coisa está bem inerente à outra. Somos seres políticos.

CATARINAS – São três anos de banda, dois EPs e um CD lançados. É possível enquadrar as músicas em um gênero musical?
Juliana Strassacapa – 
Temos uma pitada de humor no nosso trabalho, cunhamos o termo “batuque punk tropikarlos”. São referências para não serem levadas tão a sério. Pensamos em classificar como Tropicália, mas seria muito pretensioso. Nossa característica é a batucada com a veia punk do faça-você-mesmo. A escola de onde viemos é muito punk.

CATARINAS – Vocês cantam também em espanhol, além disso trazem a sonoridade latina. Essa influência, para além dos dois idealizadores Mexicanos, tem também um viés de intercâmbio com países latino-americanos…
Juliana Strassacapa – 
Tem uma proposta de união. Vem da vontade de relembrar raízes latino-americanas. Fomos descobrindo tudo nos primeiros meses da banda com a turnê no Uruguai, Argentina e Chile. Desde então, tentamos dar esse abraço. A produtora com a qual a gente trabalha também tem essa proposta de integrar o Brasil e de fazer o país olhar para o lado, para todo o continente latino-americano, e não se ater tanto ao que é produzido no norte.

Foto: Rodrigo Gianesi

Juliana não segue a receita cultural | Foto: Rodrigo Gianesi

CATARINAS – Há poucos grupos brasileiros nesse diálogo com a sonoridade e língua desses países, vocês, no entanto, deixam essa influência evidenciada até no nome…
Juliana Strassacapa – 
Sim, é um “acorda galera, tem muita coisa aqui do lado para ser explorada”. Por todos os lugares desde América Latina e América Central existe muita consciência do que é Brasil. Ao contrário da gente, que se comporta como uma ilha, totalmente desconectada dos nossos vizinhos.

CATARINAS – Existe um desconhecimento dessa identidade latino-americana, um preconceito em relação a esse povo?
Juliana Strassacapa – 
É mais um bloqueio de não se falar. Falta contato, é questão de criar oportunidade. Vejo em muitas pessoas a vontade de conhecer os países, mas a cultura nem tanto. Chega pra gente mais as culturas europeia e estadunidense.

CATARINAS – A música “Triste, louca ou má” teve grande aceitação, especialmente pelos movimentos feministas. De onde vem a letra e como foram pensadas a sonoridade e a performance?
Juliana Strassacapa – 
Todo álbum é resultado do amadurecimento individual e coletivo. Fazia um tempo que estava com vontade de dizer alguma coisa nesse sentido. Carrego o feminismo como uma parte de mim, é a maneira como me coloco mundo. Essa ideia da música vem da reflexão que tentei fazer dos meus relacionamentos e do que se passava ao meu redor. Me questionei o porquê de repetirmos compulsoriamente relacionamentos que não funcionam.

Estava lendo que há uma tendência cada vez maior de se viver só, principalmente as mulheres. O termo cunhado nos Estados Unidos “sad, mad or bad” é associado às mulheres que vivem sozinhas, como se tivessem sido abandonadas e ninguém as quisessem por elas serem tristes, loucas ou más. Simplesmente por viverem só. Pensei em algo para empoderar, para dizer “não preciso me enquadrar em tudo isso, posso fazer o que quiser da minha vida, não dependo do outro para ser”.

CATARINAS – Como foi o contato com o grupo de dança contemporânea Danza Voluminosa?
Juliana Strassacapa – 
Conhecemos esse grupo por meio de uma amiga antes de ir a Cuba. A gente já estava em contato, elas prepararam a coreografia. Foi um processo muito legal, nada frio, conversamos sobre a letra e como elas se colocavam diante da família e da sociedade. É muito importante esse tipo de representatividade. O clipe não poderia ser melhor.

CATARINAS – Vocês tocaram recentemente em Florianópolis? Como foi o show e qual a expectativa para o próximo sábado?
Juliana Strassacapa – 
O Show foi incrível. Inicialmente, estava tudo contra, vendemos poucos ingressos antecipados, choveu muito no dia e acabou a luz durante o show. Mas no fim, deu tudo certo. Tivemos uma resposta linda do público. Não consegui cantar algumas músicas, porque o público começava primeiro. Tinha um público bem diverso. Nossos shows são marcados pela diversidade. Temos muitos amigos em Florianópolis e todos são diferentes. Espero que esse próximo seja tão bom quanto.

CATARINAS – Conhece a música produzida em SC?
Juliana Strassacapa – 
Não conheço, se conheço não sei se é daí. Talvez porque eu seja a menos antenada nesse sentido do que o grupo como um todo.

CATARINAS – Como foi a escolha do nome do grupo?
Juliana Strassacapa – 
“Francisco, el hombre,” personagem do livro 100 anos de solidão, de Gabriel García Márquez, traz a figura desse músico viajante que realmente existiu. Ele era sanfoneiro e viajava de cidade em cidade desafiando as pessoas para duelos musicais. Diz a lenda que ele ganhou do diabo depois de horas de duelo. Trazemos a ideia de músico viajante, itinerante.

CATARINAS – Como é ser uma musicista viajante?
Juliana Strassacapa – 
Tudo no nosso projeto vem da estrada, faz parte ou tem isso como objetivo. Foi onde começou e como se mantém. Temos a base em SP, mas estamos sempre na estrada. As referências artísticas vêm do que conhecemos nas estradas.

CATARINAS – Que cantoras e musicistas são referências para você?
Juliana Strassacapa – 
Elis Regina, Clara Nunes, Baden Powell, Novos Baianos, Karina Buhr. Metá Metá, Serena Assumpção, Bjork, Nina Simone, Bikini Kill, Le Tigre, Year Bitch, L7, The Biggs, The Knife, Radiohead, Sonic Youth, Warpaint, Blondie. Produções feitas por mulheres me atraem muito.

CATARINAS – Em entrevista recente você disse que o estranho é necessário. Por quê?
Juliana Strassacapa – 
Para tirar do automatismo. Às vezes, precisamos de um choque para pensar, rever as coisas, refletir como estamos operando em nossas vidas.

O maior problema da humanidade é não olhar para si mesmo, não refletir sobre as relações pessoais e não facilitar a comunicação. O estranho é necessário para tirar do comodismo.

CATARINAS – Quem é o público de Francisco, el hombre?
Juliana Strassacapa – 
Não dá para definir. Começamos de uma maneira e depois diversificou muito. Tem desde criança, famílias, adolescentes. Mas, a maioria é estudantes

CATARINAS – O público feminista se destaca?
Juliana Strassacapa – 
O público feminista é muito forte. Principalmente pela resposta sincera, bem na mesma frequência em que estou.

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